Quarta, 24 Agosto 2022 15:35

Dia Nacional da Educação Infantil: desafios e perspectivas

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Dia Nacional da Educação Infantil: desafios e perspectivas Foto: Divulgação

Primeiro passo da aprendizagem, Educação Infantil é considerada fundamental para o desenvolvimento das crianças



Nesta quinta-feira (25), é comemorado o Dia Nacional da Educação Infantil, data de nascimento de Zilda Arns, fundadora internacional da Pastoral da Criança. Considerada o primeiro passo para o processo de aprendizagem, a área, que atende crianças de zero a seis anos, é considerada fundamental para que as crianças sejam estimuladas a adquirirem o gosto por ler, estudar e aprender a cada novidade.

O Centro do Professorado Paulista se preocupa e considera imprescindível a Educação Infantil, para que as reflexões acerca da importância desta etapa da educação seja compreendida por toda a sociedade, em todas as suas dimensões.

É nesta fase que as crianças expressam potencialidades de ampliar seus universos de conhecimentos e habilidades, por meio do brincar, conviver, participar, explorar e conhecer. A análise é de Cléo Bosatto, escritora, mediadora de leitura e mestre em Teoria Literária (UFSC), com 35 livros publicados, entre os quais o lançamento ‘Um lago, um menino e a lua’, em entrevista ao Portal CPP.

Ela reforça a importância do papel fundamental enquanto educadores da infância para a continuidade do magistério, de modo que a classe não fique estagnada.

“É um período de grande importância para a criança, quando ela une a linguagem ao pensamento para organizar sua realidade e se prepara para a alfabetização formal e o domínio das múltiplas competências que irá desenvolver em sua vida. A alfabetização é um rito de passagem e eu, enquanto artista da palavra comprometida com o texto escrito e falado, acredito que a oralidade exerce um papel relevante neste sentido”, diz.

Confira os principais trechos da entrevista


Portal CPP: depois da pandemia, quais dificuldades as crianças estão encontrando na aprendizagem?

Cléo Bosatto: acredito que inúmeras dificuldades. Eu não estou na escola, portanto tenho pouca autoridade para falar sobre esse assunto, mas acredito que o retrocesso ou estagnação na aprendizagem decorrente da Covid-19 só será revertida a longo prazo, e os danos, alguns quase irreversíveis, se farão sentir por muito tempo. As crianças que estavam em fase de alfabetização foram privadas dessa oportunidade, justamente no período ideal para que isso ocorra, que é dos cinco aos sete anos. Essa lacuna vai ser sentida para o resto da vida, e recuperar uma parcela desse tempo perdido vai demandar um esforço conjunto da família e da escola.

As crianças de famílias que tiveram condições de ficar mais próximas a elas e que se apropriaram da leitura e da literatura para manter os filhos em contato com a língua, estas devem ter sentido menos os efeitos negativos da ausência da escola. As outras, cujos pais tiveram que sair de casa, que ficaram sozinhas, ou com os irmãos mais velhos, ou cujos pais não têm acesso ou conhecimento da importância da leitura para a aprendizagem na primeira infância, essas crianças saem mais prejudicadas. São essas as que sofreram os maiores impactos e terão mais dificuldade de recuperação. Existe também um processo de readaptação das crianças à comunidade escolar. Elas passaram muito tempo isoladas e isso afeta a saúde mental e emocional. Teremos um longo período à frente para recuperar esses dois anos sem escola, tanto no que diz respeito a socialização, como para a aprendizagem formal.


Quais são os desafios e as perspectivas para o avanço da educação infantil?

O maior desafio é reconhecer a criança como a protagonista na construção do seu conhecimento, e a família como responsável, junto com a escola, pela promoção e desenvolvimento das potencialidades dos pequeninos. Outro desafio é integrar os diversos ambientes onde a criança circula e reconhecê-los como educadores. Principalmente na educação infantil, o conhecimento não é adquirido apenas na sala de aula. O quintal, o banheiro, a cozinha, a biblioteca, todos são geradores de oportunidades para a aquisição de conhecimento. Como perspectiva para o avanço da educação infantil, eu vejo a necessidade de uma formação continuada dos profissionais que atuam com a primeira infância, e uma política educacional que priorize a escuta da crianças, o reconhecimento das suas múltiplas habilidades, e que garanta que ela seja observada e atendida na sua individualidade.

As crianças da geração Z encontram dificuldade de concentração. O que fazer para prender a atenção delas em tarefas educacionais, sem que haja dispersão?

A leitura está aqui para isso. Com a prática contínua da leitura há uma melhora efetiva da capacidade de foco, concentração, aumento da percepção, da memória e do raciocínio. Quando a criança lê um texto em voz alta há um estímulo da oralidade, o que aperfeiçoa a sua fala estética e lhe ajuda a desenvolver fluência com a língua-mãe. Ao ler em voz baixa ela se volta para si, num processo de interiorização, o que favorece estar presente no momento e, como consequência, o desenvolvimento da concentração para outras tarefas. A leitura tem o poder de reduzir o estresse, porque ao mergulhar no texto, a criança entra numa espécie de transe e se esquece das coisas de fora, logo, relaxa e se concentra no que está fazendo. Tudo isso influencia na aprendizagem: a leitura em si, e a leitura literária especificamente, amplia o repertório verbal, melhora a qualidade da escrita, torna a sintaxe mais sofisticada, os pensamentos matizados e, a partir daí, a criança conseguirá expressar ideias e valores mais sutis e menos óbvios, o que lhe garante destaque na comunicação.

Qual o papel dos livros e da literatura na educação infantil?

Ler e contar histórias são recursos necessários no projeto da educação infantil. A oralidade é um dos principais objetivos para o trabalho pedagógico e funciona como uma chave para abrir a porta ao sujeito-leitor, uma ponte de acesso às diferentes dimensões do conhecimento, e a literatura é um instrumento que facilita esta passagem. A literatura, enquanto a arte das palavras e o livro de literatura, enquanto seu suporte, é objeto fundamental na formação de um sujeito livre, criador e criativo. O livro literário é um veículo formativo e que deve ter seu espaço assegurado no processo educacional, pois é capaz de unificar os pilares: brincar e alfabetizar. Costumo dizer, que de história em história, a gente vai se construindo.

Diante da ampla disseminação de aparelhos tecnológicos, como despertar o interesse das crianças pelos livros?

Criando um ambiente leitor, uma casa-leitora, um espaço que tem livros espalhados pelos ambientes, revistas, gibis, enfim, suportes que carregam o texto. Outra forma de despertar o interesse pelos livros é lendo para eles. Descobrir o gênero e os temas que lhes atraem e buscar títulos que falam sobre isso é o primeiro passo. A família é a primeira mediadora de leitura de uma criança e, se ela for sensibilizada desde pequena, a chance de se tornar um leitor na vida adulta é grande.

Quais as novidades de linguagem para a redação infantil? Há mudança no modo de escrever para a contemporaneidade?

Penso que a novidade seja o livro-imagem. Ele apresenta apenas ilustrações, pouco ou nenhum texto verbal, o que favorece a construção de uma história por parte da criança e, por isso mesmo, importante para o seu desenvolvimento cognitivo. E sobre a segunda pergunta, o que muda não é o modo de escrever, mas o que escrever. Para os pequenos, narrativas curtas que vão se ampliando e se sofisticando, tanto com relação a construção sintática, quanto à temática. Sempre narrativas que estejam conectadas aos seus interesses e contextualizadas ao seu cotidiano.

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