Quarta, 13 Abril 2022 12:20

Bullying: da vítima ao espectador

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Maísa Pannuti



O bullying é um tipo particular de violência, caracterizado por agressões sistemáticas, repetitivas e intencionais, contra um ou mais indivíduos que se encontram em desigualdade de poder, gerando sofrimento para as vítimas, agressores e comunidade. Ele pode ocorrer de várias formas, bem como de maneiras combinadas, dentre elas, o bullying verbal, físico, material, psicológico, sexual e, um tipo muito específico, que é o virtual ou cyberbullying.

Este último é praticado por meio de ferramentas digitais e provocam traumas e sofrimento inimagináveis, uma vez que a propagação das difamações pelo efeito multiplicador das postagens é praticamente instantânea, não havendo possibilidade de exclusão dos conteúdos. Além disso, extrapola os muros da escola e expõe a vítima ao escárnio público, gerando danos na autoestima e na identidade, de modo que, o que poderia ser de caráter privado, torna-se público.

A análise sobre o bullying não pode ficar restrita apenas ao agressor, devendo sempre ser considerada a tríade de participantes: o agressor, que é aquele que vitimiza; a vítima, que é quem sofre repetidamente as consequências dos comportamentos agressivos; e os espectadores, que são aqueles que assistem às práticas, seja presencialmente ou de forma virtual, muitas vezes se calando por medo de sofrer represálias e serem as novas vítimas.

Todas as formas de bullying precisam ser combatidas, assim como todos os envolvidos precisam de orientação e de ajuda. É importante considerar que não é apenas a vítima que deve receber apoio, os agressores também necessitam de orientação, assim como os espectadores, que desempenham um papel muito importante, sendo fundamental desenvolver a responsabilidade de que, ao presenciar uma cena de bullying, não se deve calar.

Os danos para quem sofre, para quem pratica e, mesmo para quem testemunha a violência, muitas vezes podem ser irreparáveis, devendo ser destacados: baixo rendimento acadêmico, problemas de autoestima, sensação de impotência, desenvolvimento de condutas delinquenciais, problemas psicossomáticos e transtornos emocionais graves (depressão; anorexia; bulimia; transtornos de ansiedade; ideação suicida; e suicídio).

Alguns sinais de alerta podem ser observados nos envolvidos no bullying: no caso das vítimas, muitas vezes, começam a apresentar baixo rendimento escolar, assim como fingem estar doentes para faltar à aula; outras, sentem-se mal justamente perto da hora de sair de casa. Na escola, podem ficar isoladas e apresentar postura retraída em sala de aula, mostrando-se tristes, deprimidas ou aflitas.

Já os agressores também podem apresentar alguns indicativos, tais como pouca habilidade social e falta de empatia ao realizarem brincadeiras de mau gosto, às quais podem evoluir para gozações, risos provocativos, hostis e desdenhosos, assim como tentativas de dominação dos outros por meio de ameaças diretas ou indiretas, insultos, apelidos pejorativos e agressões físicas.

É necessário que pais e educadores observem atentamente as crianças e os adolescentes, uma vez que, por meio de observação atenta, escuta ativa e um canal sempre aberto ao diálogo, será possível perceber eventuais dificuldades e mudanças de comportamento, assim como identificar interesses e padrões de socialização.

A prevenção e o combate ao bullying são de responsabilidade de todos, devendo começar pelo exemplo que os adultos devem ser para crianças e adolescentes. Eles aprenderão a respeitar as diferenças se conviverem em um ambiente pautado pelo respeito, solidariedade, generosidade e cooperação, no qual as diferenças são vistas como elementos que enriquecem a sociedade, livres de qualquer tipo de preconceito.

De nada adianta a simples punição aos agressores, ou apenas a proteção às vítimas, se a comunidade não se conscientizar de que o bullying é um fenômeno social e multifatorial e que, por isso, deve ser combatido desde sua raiz, o que implica o engajamento de todos na construção de uma sociedade mais plural e aberta à diversidade.

Maísa é psicóloga, mestre e doutora em educação, especialista em psicologia no Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento (CIPP) dos colégios do Grupo Positivo.

Última modificação em Sexta, 15 Abril 2022 22:14

1 Comentário

  • Link do comentário ÁTILA DIOGO GOMES GUEDES Domingo, 17 Abril 2022 22:04 postado por ÁTILA DIOGO GOMES GUEDES

    Sucinto e preciso. É uma pena que as pessoas que precisam enxergar caminhos para lidar com isso muitas vezes estão partindo de princípios incorretos, priorizando a minimização de consequências sociais e externas ao problema, ao grupo do conflito em si, e não enxergando as reais motivações nem da vítima nem dos agressores. Às vezes um órgão, uma empresa, uma instituição, uma escola, devem estar dispostos a sacrificar um pouco de sua imagem para salvar o coração e a vida de um punhado de seres humanos. Mas cargos, dinheiro, posição, e status tendem a ter preferência na hora que os tratadores de tais situações analisam as possíveis soluções, e nem sempre ocorrem atitudes comprometidas com a eliminação do sofrimento e com a punição educadora dos agressores. É o dilema do mundo capitalista moderno, onde todos dependemos de dinheiro, e muito, para ter uma vida minimamente confortável. Até que ponto as pessoas estão dispostas a colocarem o próprio sustento em risco para proteger ou salvar um estranho? Quem está disposto a dar uma entrevista para a imprensa, ou mais importante, testemunhar perante um juiz? Uma escola pode ameaçar de processo os pais de um aluno se eles forem politicamente importantes? Ou artistas? Ou parentes de banqueiros? E no âmbito de uma empresa qualquer, onde o empregado depende desesperadamente daquele salário? Esse é um aspecto interessante que poderia ser amplamente analisado e debatido em diversos setores da sociedade. Mas só falar não resolve nada. É preciso aprimorar a legislação pertinente, após se delimitar uma gama extensa de variações desse tipo de conflito. E facilitar através de diversos canais da sociedade a denúncia e o enfrentamento de tais problemas. Ouvidorias que só fingem tratar o problema ou que estão compactuadas com a direção da instituição envolvida não são resposta, são agravamento do problema. Gostei muito dessa texto seu e espero que muitas pessoas reflitam à respeito. Nossa sociedade precisa disso.

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