Segunda, 26 Junho 2017 15:44

Olha quem fala: o mestre da oratória no Brasil, Reinaldo Polito

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“Parece-me que o bom cidadão deve preferir as palavras que salvam às palavras que agradam.” Essa frase é creditada a Demóstenes, o maior orador de todos os tempos, segundo os historiadores. Não foi nada fácil para o orador grego conquistar este prestígio. Como era gago, só conseguiu superar suas limitações submetendo-se a exercícios severos que incluía encher a boca com pedrinhas enquanto falava em frente ao mar.
 

Nos dias atuais não é necessário nenhum sacrifício para dominar a arte de falar bem. As pessoas inseguras ao enfrentar uma plateia ou uma entrevista – aquelas que perdem grandes oportunidades na carreira ou na vida por não conseguirem expressar-se com clareza e excesso de nervosismo – podem ter certeza: todos podem desenvolver habilidades para falar em público.
 

Quem garante é um dos maiores comunicadores do Brasil e referência em cursos de oratória, Reinaldo Polito, Mestre em Ciências da Comunicação, professor de oratória há 41 anos, palestrante e escritor. Presidente da Academia Paulista de Educação, publicou 29 livros no Brasil e em diversos países com mais de um milhão e quatrocentos mil exemplares vendidos. Continuamente requisitado pela mídia, o professor Polito, que recentemente participou da série Olha Quem Fala, no Fantástico, concedeu esta entrevista ao Portal CPP.
 

Portal CPP: Professor, como um dos mais renomados especialistas em oratória do Brasil, quais os desafios dos educadores na arte de falar bem? O que é imprescindível a um educador para cativar e prender a atenção?

Professor Polito: Independentemente de ser ou não educador, só será possível prender a atenção dos ouvintes a partir de três requisitos essenciais:
A - Mostrar de maneira clara e, em alguns casos, até ostensiva quais os benefícios que o público terá com sua mensagem. O educador precisa mostrar logo no início da aula que vantagens a matéria terá para a vida do aluno. Em que situações ele irá aplicar os conhecimentos como fim na sua atividade, ou como meio para que os objetivos do estudante sejam atingidos.
Se o aluno não compreender de forma clara como poderá fazer uso dos ensinamentos que recebe, e sentir que está estudando apenas para ser aprovado na matéria, dificilmente ficará motivado com o aprendizado.
B - Criar expectativas nos ouvintes durante toda a apresentação. Ouvinte sem expectativa dificilmente mantém interesse no que está sendo exposto. Quem fala em público deve mostrar aos ouvintes que algo muito interessante irá acontecer na sequência. Uma espécie de cenoura que o coelho persegue com aquela sensação de que a qualquer momento conseguirá apanhá-la.
C - Incluir uma quantidade de espetáculo para tornar a apresentação mais atraente. O conteúdo “em voo solo” quase nunca consegue ser suficiente para atrair e prender a atenção dos ouvintes. O orador e o educador precisam avaliar bem o tipo de público que terão pela frente e decidir com boa margem de acerto o “show” que tornará a mensagem mais sedutora. Nem menos para não ser sem graça, nem exagerado para não cair na vulgaridade.
 

Um bom orador nasce com o dom ou a habilidade vem por meio de experiências e treinamento?

Ministro cursos de oratória há 41 anos. Nunca encontrei um aluno sequer que sendo empenhado, disciplinado, dedicado e comprometido com o aprendizado não conseguisse desenvolver e aprimorar sua competência para falar em público.
Oradores eloquentes, que arrebatam multidões são raros. Esses precisam nascer com a centelha, com o dom da arte de falar em público. Mesmo esses, quase sempre, também precisam de dedicar para aflorar e aperfeiçoar esse dom.
Por outro lado, todos podem aprender a se apresentar em público com desembaraço e confiança. São as situações mais comuns, como apresentar projetos e propostas na vida corporativa. Proferir palestras e conferências. Dar entrevistas para emissoras de rádio e televisão. Abrir e fechar seminários, workshops, eventos sociais ou profissionais. Enfim, todos podem desenvolver habilidades para falar em público.
Muitas vezes algumas pessoas até sem muito dom natural, mas determinadas em se tornar boas comunicadoras conseguem resultados mais expressivos até que aqueles dotados de eloquência natural.

 
Quais as técnicas fundamentais para um orador sentir-se seguro em qualquer apresentação?

- Um orador se sentirá seguro em qualquer apresentação se conhecer o assunto com profundidade. É preciso ir para a frente dos ouvintes com sobra de informações. Se tiver de falar durante meia hora, precisa ter estoque de conteúdo para pelo menos uma hora. Quanto mais conhecer e dominar o tema mais seguro e confiante ficará.
- Além de conhecer o assunto precisa ter as informações muito bem organizadas, com começo, meio e fim. Aquele que não souber o caminho que irá percorrer, dificilmente se sentirá tranquilo diante dos ouvintes.
- Não bastará, entretanto, conhecer o assunto e ordenar o pensamento se não tiver prática para falar em público. Quanto mais experiência a pessoa tiver para falar diante das plateias mais confiante se apresentará.
- Finalmente, é preciso que tenha consciência de suas qualidades de comunicação. Algumas pessoas conhecem o assunto, sabem organizar o raciocínio, possuem experiência, mas não se conhecem. Por isso, ficam sempre com receio das críticas que poderão receber. Portanto, é fundamental que o orador saiba se tem boa voz, vocabulário amplo, postura elegante, gesticulação harmoniosa, presença de espírito, habilidade para contar boas histórias etc. E se perceberem que faltam alguns desses requisitos, devem se dedicar ao seu aprimoramento até que o problema seja solucionado.
 

Muitas vezes a pessoa domina o assunto, mas, ainda assim, tem dificuldade de apresentar-se em público. O nervosismo e a vergonha dominam e, na hora H, dá um branco. O que fazer para evitar essa situação?

Se der branco, a primeira atitude é procurar não se desesperar (não é simples, mas é possível). Geralmente o branco não surge por falta de uma ou outra palavra, mas sim por perder a sequência do pensamento. Um recurso que dá ótimo resultado é dizer: “na verdade o que o que quero falar é...”. Não falha. O orador se obriga a recontar a informação por outro ângulo e se livra da armadilha do branco.
 

O que gera medo em falar em público?

De maneira bem objetiva:
- Falta de conhecimento sobre o assunto.
- Falta de ordenação didática do pensamento.
- Falta de prática, de experiência no uso da palavra em público.
- Falta de autoconhecimento

Para combater o medo e adquirir mais segurança o orador deve combater cada um desses motivos:
- Conhecer o assunto com profundidade.
- Aprender a organizar o raciocínio.
- Praticar bastante.
- Aprender a se conhecer pelos aspectos positivos.
 

Quais os erros mais comuns que as pessoas cometem ao falar em público?

Os erros mais comuns que as pessoas comentem ao falar em público são:
01- Não dominar o assunto com profundidade.
02- Não avaliar de maneira correta as características e aspirações dos ouvintes.
03- Não contextualizar de forma adequada o conteúdo ao tipo de público.
04- Não usar volume de voz adequado ao ambiente.
05- Não se valer de vocabulário apropriado. Por exemplo, usar termos técnicos diante de pessoas leigas ou vice-versa.
06- Pronunciar as palavras com dicção defeituosa.
07- Falar com postura desleixada.
08- Gesticular demais ou de menos.
09- Não ser coerente com a mensagem demonstrada pelo semblante e a mensagem transmitida pelas palavras.
10- Falar sem emoção, ou com emoção demais para o momento. 

Para desenvolver a oratória e aprender a falar em público com desembaraço e confiança é importante que a pessoa se aplique. De preferência fazendo um bom curso. Se não puder, pelo menos lendo bons livros que ensinam essa arte.

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