Quinta, 24 Maio 2018 15:03

Conflitos da educação na visão da primeira e única reitora da USP

Mônica de Araújo
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Conflitos da educação na visão da primeira e única reitora da USP Foto: divulgação/arquivo pessoal

A entrevistada é a doutora Suely Vilela, associada do CPP, professora titular do Departamento de Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo. Primeira e única mulher até hoje a comandar a reitoria da USP. 
 

Portal CPP: Qual a sua opinião acerca da BNCC?

Suely Vilela: No meu ponto de vista não basta reduzir a desigualdade educacional. É preciso acrescentar estratégias para a implementação. Ter a lei é fundamental, mas é preciso estar necessariamente associada a essas estratégias. A base não é um currículo. É um conjunto de referenciais para orientar as escolas na elaboração do seu currículo. Isso permite que cada estado, região, município coloque seu currículo e desenvolva matérias específicas de sua região. Entendo que é um avanço. Mas no Brasil temos que tomar muito cuidado. Fazemos leis e depois não temos planejamento, estratégias, a gestão dessas leis. É nisso que falhamos, principalmente nas instituições públicas. Qual o benefício desta BNCC para o aluno? Depois de ter toda a avaliação da gestão desse processo, temos que verificar se realmente temos um impacto na aprendizagem. A BNCC tem uma proposta boa. Tem pontos frágeis. Mas a questão da gestão é fundamental. Não basta criarmos as leis, temos que colocar o que fazer e como fazer.
 

Entrar numa universidade pública é um desafio ainda mais implacável aos alunos da rede pública, que muitas vezes são obrigados a deixar o Ensino Médio para trabalhar. Qual o caminho para ampliar as condições de ingresso ao Ensino Superior?

Entendo que o acesso e a permanência para que o aluno consiga concluir o curso são os dois grandes desafios do ensino superior. O caminho é a melhoria da qualidade da Educação Básica e a diversificação dos modelos de instituição de ensino superior. Isso o Brasil está fazendo. Temos, em geral, uma baixa qualidade em Educação Básica. Se formos olhar o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica Fundamental, o da rede privada é maior do que o do município, que é maior do que a do estado. Diria que não está bom, mas está melhor do que do Ensino Médio. Dados afirmam que 50% são analfabetos funcionais. Este é o grande problema. Por vezes o aluno consegue acessar a universidade, mas o índice de permanência é muito baixo. Na rede privada é de 40%. Na pública, é de 5,03%. No setor rural é de 47%. Outro fator é a questão socioeconômica. É muito difícil para o aluno que precisa trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Ás vezes não tem o dinheiro para se alimentar e para pegar o transporte. Então, ele desiste. Não há perspectiva, motivação. Isso acaba numa evasão alta. Nem todo jovem precisa entrar numa universidade como a USP e UNICAMP. Temos os centros universitários, as faculdades e os institutos federais de tecnologia.

Pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 7 de março de 2018, revelou que a presença feminina em cargos de gerência diminuiu nos últimos anos. Como é atuar como primeira – e única até hoje - reitora da USP, uma das melhores e mais prestigiadas universidades do mundo, a melhor universidade latino-americana, onde se formaram treze dos quarenta e três presidentes brasileiros?

É um privilégio, uma responsabilidade enorme. Me acrescentou um conhecimento fantástico. Eu diria que o século 21 é o século das mulheres porque destaca valores como ética e a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, de trabalhar em equipe. Os estudiosos em gêneros mostram que este século trará avanços consideráveis com a mulher em cargos de lideranças. É nessa perspectiva que eu sempre procuro estimular as jovens, no sentido de mostrar a capacidade que a mulher tem em exercer estas atividades. Existe um conflito, muitas vezes, entre ser mãe, fazer as atividades do lar e ser profissional. Como reitora tinha compromissos que limitavam o convívio com a família. É preciso ter uma estrutura familiar muito forte. Além de ter conhecimento de gestão, você precisa ter um equilíbrio emocional e uma base familiar efetiva para conseguir trabalhar e exercer bem a atividade. A USP conseguiu ser a primeira no Brasil, na América Latina e entre as melhores do mundo, porque tem valores muito estruturados como a dedicação exclusiva dos docentes (RDIDP). Hoje, 93% dos nossos docentes mantêm uma dedicação exclusiva. A USP tem um modelo que articula ensino, pesquisa e extensão de forma indissociável. Dá um ensino diferenciado para o aluno para que tenha um comprometimento com movimento sustentável do país e com a qualificação dos nossos professores. Para ingressar a USP o profissional tem que ter, no mínimo, o título de doutor. Ter sido reitora desta universidade foi um grande aprendizado.
 

A escola pública demanda um severo comprometimento de seus profissionais. Como fazer com que o professor não considere o magistério apenas como um emprego, mas como uma profissão digna? Qual o primeiro passo para motivar o professor da escola pública paulista?

Isso passa pela valorização do professor e a infraestrutura de trabalho que ele tem. O professor tem que ter um plano de carreira, uma perspectiva de evolução. O plano de carreira precisa estar ligado ao programa de capacitação. Em algumas regiões vejo que há bons salários. Em outras, não. Sou fruto de escolas públicas, desde a minha educação básica até quando ingressei na USP. Fiz meu mestrado, meu doutorado e pós-doutorado em escola pública. Isso mostra que é possível o ensino público resgatar a qualidade que sempre teve. O professor para mim sempre foi uma referência. Tinha respeito. A figura do professor era valorizada, reconhecida e prestigiada. É preciso resgatar a valorização do professor. Mas é preciso, também, que haja liderança. Os gestores das escolas, os diretores, os secretários, precisam ser líderes para colocarem os professores num processo de motivação, de engajamento, de comprometimento com a escola, isso é extremamente importante. Os professores precisam estar dentro do contexto, não apenas entrar ali, dar a aula e ir embora. Muitos talvez desconheçam a realidade da escola.
 

Manter o aluno dentro da escola faz toda a diferença para a sociedade, para a família e para a formação de sua cidadania. Existem hoje 2,8 milhões de crianças e adolescentes brasileiros fora da escola. Desse total, 57% (1,6 milhão) são jovens entre 15 e 17 anos. Como estancar a evasão escolar, especialmente no ensino médio? 

A evasão no ensino médio deve-se porque os alunos não chegam alfabetizados, então não conseguem acompanhar. São motivados por outros interesses. Temos um IDEB baixíssimo de analfabetismo funcional. A BNCC trouxe a antecipação da alfabetização – que sempre foi feita no 3º ano. Agora passou para o 2º ano. Isso traz uma nova responsabilidade. Fica comprovado que a educação básica é a base da pirâmide educacional. Se não houver uma base sustentável, você não consegue chegar ao Ensino Médio. É preciso investir muito mais e fazer os acompanhamentos desde a educação infantil. De acordo com a BNCC, será cada vez mais precoce. Essa é uma das minhas preocupações. Se alfabetizando no 3º ano o Brasil não consegue êxito, agora a BNCC vem e dá um prazo menor ainda? Só pela força da lei, nós não vamos conseguir. Temos efetivamente que tratar da questão do acompanhamento, do planejamento, da estratégia de como fazer a melhoria da aprendizagem do aluno. É preciso cobrar dos professores que tenham currículos adequados para aquela formação e que os conteúdos sejam cumpridos. É dessa forma efetiva, com diretores e secretários comprometidos neste acompanhamento, nesta gestão do processo. É dessa forma que vamos diminuir a evasão, fazer com que esses jovens saiam do Ensino Médio, entrem no Ensino Superior e concluam os seus cursos.
 

Segundo recentes dados da ANA (Avaliação Nacional de Alfabetização), mais da metade dos alunos da Rede Pública no terceiro ano do ensino fundamental tem níveis insuficientes de leitura e matemática. O que fez com que o ensino público chegasse a índices tão preocupantes?

Vou repetir: é falta de gestão desse processo. Muito importante para a alfabetização são as metodologias ativas de ensino. Hoje você tem que motivar este aluno a aprender esse processo de aprendizagem. Apenas por meio de aulas expositivas, dentro da sala de aula, nós não vamos conseguir isso. Investir especialmente em matemática e em língua portuguesa, que é o processo de alfabetização, vai fazer com que você consiga transitar e entender as demais matérias. É exatamente isso: a falta de gestão nas redes de ensino, a falta de estratégias de como avançar neste processo, o acompanhamento dos conteúdos administrados, o conteúdo adequado para aquele momento, para aquela série e como fazer isso. É preciso, também, de muito investimento financeiro. A BNCC só vai dar certo se tivermos gestão e investimento em toda cadeia desse processo, para que realmente chegue ao aluno.
 

A população brasileira clama por mudanças. A educação está na lista das prioridades. O que fez com que o ensino público chegasse a tamanha debilidade? Quais as principais providências para retomar a qualidade e recuperar o prestígio dos profissionais da educação?

A educação está na lista. É isso que é lamentável, porque na hora de executar observamos e vimos os desvios de recursos. Este é um dos grandes problemas deste país, a falta de gestão pública, a falta de transparência da aplicação de recursos. Felizmente, estamos avançando neste processo de transparência. Tem um aspecto importantíssimo que é a importância da educação. Se você fizer uma pesquisa e perguntar para a população qual a sua prioridade, a educação normalmente aparecerá em 4º lugar - após saúde, segurança e habitação. Este é o grande erro. A educação é a base das demais áreas. Qualquer alteração só ocorrerá por meio da educação. Primeiro devemos sair da teoria, passar para a prática e tratar todos os segmentos da sociedade com o reflexo que esta educação tem em nossas vidas. Hoje, não temos segurança porque a base está na educação. Perdemos os valores da sociedade. Precisamos resgatar a sociedade. Mata-se por causa de um celular. Isso é falta de escolaridade. Temos que sair do discurso, da lista de prioridades e fazer com que a educação seja prioritária e fazer ações nesse sentido. Para recuperar o prestígio dos profissionais do ensino público é preciso contratar pessoas com qualificação e ter um programa de capacitação desses profissionais. Na Finlândia, todos os professores da educação básica têm o título de mestre e, alguns, de doutores. Há um diferencial enorme. Cingapura também. Eles investem muito nos profissionais, na valorização, na carreira.
 

A professora Suely ocupou o cargo na Universidade de São Paulo de 2005 a 2009. Formada em Farmácia e Bioquímica pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP), fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na instituição.

É membro da Academia de Ciências de Ribeirão Preto (cadeira 24), da Academia Nacional de Farmácia (cadeira nº 51) e da Academia Brasileira de Ciências, Artes, Historia e Literatura, como membro vitalício (cadeira 23), na condição de Acadêmica Efetiva-Imortal. Foi Secretária da Educação de Ribeirão Preto em 2017.

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