Terça, 23 Outubro 2018 16:45

Entre 10 melhores professores do mundo, um é dos nossos, Brasil

Mônica de Araújo
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Entre 10 melhores professores do mundo, um é dos nossos, Brasil Foto: Arquivo pessoal/Facebook

"No cenário nacional, os professores são sempre os últimos a serem ouvidos. Poucos os que ouvem quem está no chão da escola. Penso que os cargos técnicos na secretaria e no Ministério da Educação deveriam ter passado primeiro por uma escola pública."

 

A dificuldade da educação pública brasileira em atingir uma qualificação digna do seu povo é imensurável. As dificuldades e os perigos enfrentados pelos educadores são tantos, que todo professor acaba se tornando cover de super-herói.
 

Mas esse ano aconteceu um fato que animou muita gente e trouxe orgulho para todo brasileiro. O Brasil viu um dos seus professores receber reconhecimento internacional. O mundo inteiro voltou os olhos para o comprometimento do professor Diego Mahfouz Faria Lima em zerar a taxa de evasão dos alunos da Escola Municipal Darcy Ribeiro, em São José do Rio Preto (SP), e eliminar os altos índices de criminalidade na comunidade. A vitória veio por meio do diálogo, da  estreita comunicação entre a escola e os alunos; mudança  que alteou o cotidiano de toda a comunidade.
 

“As salas de aula, além de incendiadas, eram todas pichadas. No meu primeiro dia de trabalho, colocaram fogo no banheiro, jogaram água e também viraram os tambores de lixo em mim”, explicou o educador.
 

Os esforços valeram a pena. O professor Diego, diretor de escola, tornou-se finalista do Global Teacher Prize, uma das mais importantes premiações de professores do mundo. O anúncio foi feito por Bill Gates, dono da Microsoft. O prêmio é considerado o prêmio Nobel da Educação. Foram 170 países participantes com quase 40 mil professores inscritos.

Diego foi o único professor brasileiro do concurso que mostrou que sabe fazer diferença na comunidade onde vive. Sua participação foi diferenciada por ter sido escolhido para ser um dos palestrantes no evento em Dubai. Neste ano, estiveram presentes como palestrantes o antigo presidente francês Nicolas Sarkozy, o ex-vice-presidente americano Al Gore, o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton e os brasileiros Ricardo Paes de Barros, do Instituto Ayrton Senna, e Priscila Cruz, da ONG Todos Pela Educação e Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann.

Em 7 de março, o professor Diego recebeu, em Brasília, a condecoração Ordem Nacional do Mérito Educativo, entregue pelo Ministro da Educação, José Mendonça Filho. E tem mais: o professor Diego recebeu dois prêmios nacionais: o “Educador Nota 10”, promovido pela Fundação Victor Civita, e o título de “Educador do Ano”, concedido pela Academia Brasileira de Educação, a mais importante premiação nacional do setor.
 

No Dia do Professor, entre muitas homenagens, o professor Diego recebeu da Câmara de Rio Preto a Medalha 19 de Julho e o Diploma de Gratidão da Cidade.
 

Diego nasceu em Paranaíba (MS), é pedagogo, pós-graduado em Tecnologias Educacionais, Teorias e Práticas Pedagógicas e Administração Escolar.
 

O Portal CPP entrevistou o professor Diego para saber como conquistou a grande vitória.
 

Portal CPP: O  que mudou em sua vida após o concurso que o colocou entre os 10 melhores educadores do mundo?

Diego Mahfouz: Eu destaco o reconhecimento do trabalho na minha própria comunidade e a importância de poder compartilhar esse projeto e ajudar outros educadores que passam pelas mesmas situações que eu passei quando cheguei  na escola Darcy Ribeiro. Importante, também, as parcerias que fizemos após a divulgação do concurso.

 

Como reconhecimento, quais foram os prêmios  e as homenagens recebidas?

Em Brasília recebi a Ordem Nacional do Mérito Educativo e em janeiro terei mais uma homenagem, desta vez no Rio de Janeiro, também feita pelo MEC. No Dia do Professor, recebi da Câmara de Rio Preto  a Medalha 19 de Julho e o Diploma de Gratidão da Cidade. Ganhei o Educador Nota 10 e o Educador do Ano, da Fundação Victor Civita em parceria com a Fundação Roberto Marinho, o Oscar da Educação da Academia de Educação do Rio de Janeiro, em Dubai a Medalha por  estar entre os 10 melhores educadores do mundo.
 

O que mais o preocupa na educação brasileira?

A educação brasileira está desacreditada. Quando fui para Dubai para apresentar o projeto para a Fundação  Varkey (organizadora da Global Teachers Prize)  e para outras instituições, inclusive as  administradas pelo Bill Gates, sempre destaquei que apesar do Brasil ter muitas dificuldades na educação, é possível sim, a transformação.  Mas é importante que haja mudança nas políticas públicas, principalmente  no investimento na formação do professor – hoje ele vai para uma sala de aula sem saber como tornar a escola e as  aulas mais atrativas, para que os alunos possam permanecer . Era o que acontecia na Darcy Ribeiro.

 

Se o senhor  fosse o Ministro da Educação, quais as meditas mais urgentes que adotaria no Brasil?

Seriam  cinco medidas urgentes:

Investir na questão da formação do professor que contemplasse que o professor estivesse preparado para esse novo tipo de aluno que recebemos diariamente. Quando implementamos o projeto na Darcy Ribeiro era muito difícil fazer com que os professores enxergassem que a escola não era atrativa, que estávamos fazendo a escola lá do século XIX, que o professor era um transmissor de conteúdo e o aluno vinha somente para receber . E não é assim. Todos os  envolvidos  devem compartilhar o conhecimento. Certamente eu mudaria, em primeiro lugar, a formação do professor, desde a faculdade até a formação do estágio.

Outro ponto importante é a educação integral. Há uma grande falha. Em muitos municípios parece que há um depósito de alunos. Não há um objetivo concretizado de educação integral para qual foi criado.

Outro ponto emergencial é a implantação da Base Nacional Comum Curricular. Esse documento não pode ter chegado na versão final. Acredito que precisa sofrer grandes revisões. Quando recebi o prêmio do Mérito Educativo pude conhecer parte da equipe que fez a BNCC, formada por pessoas altamente conceituadas, mas penso que foram poucas as discussões em que o professor que está em sala de aula foi ouvido. O ouvir o profissional virtual é pouco.

Apesar da reforma, o Ensino Médio também não está vindo ao encontro  das necessidades do aluno. Precisa ser mais profissionalizante para depois encaminhar para o mercado de trabalho. Se deixar o adolescente e o jovem na rua, o tráfego e a criminalidade acabam abraçando esse aluno.  

Se eu fosse o ministro da educação, gostaria de fortalecer  a intersetorialidade  – falta um olhar para a educação infantil de qualidade muitos problemas seriam sanados. Há muitos municípios que acham que a educação infantil é só brincar, sem nenhuma finalidade pedagógica, que não tem que trabalhar a coordenação motora,  ou seja, um depósito de criança.
 

O senhor poderia falar mais acerca das parcerias?

Na Darcy Ribeiro queríamos ter um laboratório de informática e uma rádio escolar. Conseguimos por meio de uma parceria pública e privada. Esse tipo de parceria deve ser fortalecida  em nosso país. Não tínhamos recursos financeiros para realizar os projetos. No grêmio, por exemplo, havia  alunos que não tinham perspectivas profissionais para o futuro. A partir do laboratório de informática com três empresas privadas da cidade e nossa rádio escolar, os alunos passaram a ter outra visão. Alguns querem ser jornalistas, outros gostam da informática,  da comunicação. Outro ponto importante é o envolvimento da comunidade. Uma parcela muito participativa com sentimento de pertencimento. Abrimos a escola no final de semana  com muitas atividades e ampla participação da comunidade.

 

O que deveria ser feito para valorizar o professor que atua nas escolas públicas?

Para a valorização é preciso uma formação de qualidade e salários bons. Conversei com várias pessoas em Dubai e uma das profissões mais valorizadas é a de professor. Ganha muito bem. Em média recebe o equivalente a vinte e cinco mil reais. Aqui há professor chega a trabalhar em três períodos distintos, até mesmo em escola particular, para ganhar um salário digno. É preciso que o professor seja ouvido, também. No cenário nacional, os professores são sempre os últimos a serem ouvidos. Poucos os que ouvem quem está no chão da escola. Penso que os cargos técnicos na secretaria e ministério da educação, deveriam ter passado primeiro por uma escola pública.

Qual deve ser o foco do educador para se tornar um profissional exemplar?

O foco deve ser  o amor, a dedicação e, principalmente, a vontade de fazer a diferença  e acordar todos os dias sabendo  que nossa missão é transformar vidas. Isso supera todos os desafios, todos os obstáculos.
 

Deixe, por favor, uma mensagem de incentivo aos seus colegas, professores associados do Centro do Professorado Paulista. 

Nós, professores,  somos pessoas dignas de respeito, reconhecimento de valorização, assim como eu, temos que ir juntos mostrar que é possível, que apensar dos obstáculos é preciso continuar nessa missão de transformar vidas e que, apesar da falta de recursos é preciso transformar a escola mais atrativa e prazerosa para os alunos, porque é por meio das escolas é que eles poderão mudar a realidade de vida deles.
 

No começo de 2019 o professor Diego estará de malas prontas para implementar seu exitoso projeto na Colômbia. 

1 Comentário

  • Link do comentário Luzia de Fátima Paula Quinta, 01 Novembro 2018 10:39 postado por Luzia de Fátima Paula

    Belo e exitoso trabalho...

    Grande abraço...
    Sucesso.

    Luzia de Fátima Paula

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