Sexta, 23 Novembro 2018 11:51

Fiscalizar professor põe em risco relação de confiança na escola

Mônica de Araújo
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Fiscalizar professor põe em risco relação de confiança na escola Foto: arquivo pessoal/divulgação

Para opinar acerca dos desafios da educação pública do século 21, o Portal do CPP convidou a diretora executiva do Instituto Inspirare, a jornalista Anna Penido, especialista em educação formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com especialização em Direitos Humanos pela Universidade de Columbia e em Gestão Social para o Desenvolvimento pela UFBA. Ela participou do programa Advanced Leadership Initiative da Universidade de Harvard e coordenou o escritório do UNICEF para São Paulo e Minas Gerais.
 

Portal CPP: A história da escola pública brasileira, especialmente a paulista, registra uma época áurea, com alta qualificação e valorização de seus profissionais. Havia respeito e a professora era o orgulho de sua família. Quando e o que deu errado na educação pública?

Anna Penido: A história pública brasileira viveu sua época áurea quando atendia uma parcela pequena da população. Fica cada vez mais difícil garantir a qualidade junto com universalidade do acesso e uma educação pública e gratuita. É preciso pensar que, neste esforço de se assegurar a universalidade, é preciso se investir fortemente em qualificação de professor, em planos de cargos e salários dignos que atraiam talentos para a profissão docente. Garantir, também, investimentos para a infraestrutura, materiais didáticos. Além do desafio da universalidade, a escola passa por uma crise global, de credibilidade. O modelo de escola de hoje tem dificuldade em atender ao perfil, aos interesses, às necessidades dos alunos do século 21, assim como prepará-los para os desafios da vida contemporânea.
 

Como promover mudanças nas escolas públicas se há um grande confronto entre a educação tradicional, desgastada com o passar do tempo, e a tecnologia presente no cotidiano dos alunos do século 21?

O desafio da escola de se reinventar e de se conectar com a demanda da sociedade precisa ser enfrentado. A escola não é lugar de experimentação porque os alunos não são cobaias. Não estamos falando de novidades ou modismos, mas é fundamental que a escola e todos os agentes participantes revejam seus procedimentos, suas práticas produzidas muito mais por hábito, por tradição, do que por relevância. É importante que as escolas se repensem não por novidades tecnológicas, mas sobre a demanda de seus alunos e sobre enfrentar os desafios da sociedade. É preciso, a partir dessa linha profunda, buscar novas soluções para problemas que não estão superados, que emergem com essa mudança no contexto em que a escola se insere. Tudo muda com certa celeridade. Muitas escolas já fizeram o esforço de começar a repensar, de propor novas práticas. A questão é que precisamos fazer isso em todas as escolas a partir de um processo de dentro para fora. Não adianta trazer os pacotes prontos de fora para dentro. O processo precisa ser endógeno. A própria comunidade tem que se reconstruir de uma forma orgânica e responsável. 
 

Como integrar os alunos no processo de inovação educacional?

Neste processo de se reinventar é fundamental que a escola incorpore a contribuição ativa dos próprios estudantes, afinal, eles são a única coisa que já nasce no século 21 e tem condição de participar profundamente dessa reflexão sobre o que está funcionando ou não. Por isso, é importante ouvi-los e envolve-los, num processo de escuta, de diálogo, de discussão, e com eles criar novas soluções. Tenho visto muitas escolas que envolvem os alunos em oficinas, em processos de ressignificação para que, junto com os professores, possam pensar sobre as novas alternativas para o ambiente escolar, para as práticas pedagógicas, para o currículo. Acredito fortemente que quanto mais envolvemos os alunos, mais responsáveis seremos no processo de ressignificação da escola.
 

Quais os maiores erros dos gestores em relação à educação no Brasil?

Convivendo de perto com muitas redes de educação percebo que há uma dificuldade muito grande do gestor, antes de propor qualquer coisa, de compreender a realidade da sua rede. Escutar alunos, professores, funcionários, técnicos, diretores de escola, familiares e conseguir entender a fundo quais as causas que geram esses problemas, não só pelos sintomas. Outra dificuldade grande é garantir a continuidade no que está dando certo. Muitas vezes, enxergamos as mudanças de gestão que simplesmente abrem mão de tudo o que aconteceu antes; que descontinuam as coisas que dão resultados em prol da marca de um legado próprio. Admiro profundamente a resiliência de muitos professores e gestores que, apesar da descontinuidade, ainda acreditam, arregaçam as mangas e fazem acontecer.
 

Quais as suas expectativas em relação à educação no futuro governo brasileiro?

Em primeiro lugar, entender as políticas que estão em curso, que são relevantes, que já mobilizaram as redes Brasil afora. Que essas politicas possam ser continuadas com aprimoramento, com superação dos desafios que elas ainda têm, ou seja, que haja continuidade. Espero que muito do que foi prometido em campanha não seja colocado em prática. Acredito que essa “caça às bruxas”, a questão da Escola sem Partido, de uma fiscalização moral sobre professores e escola, vá colocar em risco a própria relação de confiança, que já está difícil de ser construída no ambiente escolar, sob pena de macular todo o processo de  construção de uma comunidade escolar, com vínculos de confiança, de objetivos comuns.

Se tirarmos da escola os temas polêmicos, a capacidade de desenvolvermos o pensamento crítico, a capacidade de envolver os alunos nas construções de soluções para os problemas que vivemos em sociedade, como a intolerância, a desigualdade. Se não trouxermos essa perspectiva para dentro da escola, de preparar o estudante para ser cidadão crítico comprometido  com  os problemas contemporâneos, vamos, de alguma forma, comprometer o futuro de uma geração que estará despreparada para lidar com a vida como ela é.
 

Deixe uma mensagem aos educadores diante dos desafios de mais um ano novo, e, mais uma vez, do Brasil sob nova direção.

Digo a vocês que não duvidem da nobreza da sua profissão, do quão importante é uma professora, um professor na vida desses estudantes, venham de que origem sociocultural for.
Um professor que tenha um olhar especial a cada um de seus alunos, que consegue ver neles a potência quanto aos receios, sabe que seu profissionalismo, seu compromisso com a profissão faz a diferença na vida desses estudantes. Mantenham-se fiéis à escolha que fizeram. Que possam estar cada vez mais juntos, não apenas apontando as dificuldades, as idiossincrasias, as incoerências que ameaçam o cotidiano, mas sejam capazes de se unir para propor uma nova agenda para a educação e envolver os alunos nessas propostas. Todos os desafios propõem novas alternativas para uma escola ainda mais forte, com mais qualidade.

1 Comentário

  • Link do comentário Josimar Bispo de Souza Sexta, 23 Novembro 2018 20:43 postado por Josimar Bispo de Souza

    Planos de carreiras do magistério inexistentes ou ineficientes em grande maioria dos Estados e Municípios, baixíssimos salários fazem do magistério uma profissão pouco atrativa e a desvalorização dos professores por todos os governantes do País nos indica apenas a falência da Política de Educação nos Estados e nos Municípios, todos nós sabemos disso, menos os governantes.

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