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Quarta, 03 Abril 2019 16:05

Tabata, a bela que é fera na luta pela qualidade da Educação

Mônica de Araújo
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Tabata, a bela que é fera na luta pela qualidade da Educação Foto: divulgação

"Quando a gente fala de valorização do professor, a gente fala, sim, de salário; isso não deve ser um tabu"

A parlamentar Tabata Amaral é o que podemos chamar de um ponto fora da curva. Com o máximo esforço, a filha de um cobrador de ônibus e de uma diarista sempre se destacou além do que uma garota da periferia de São Paulo e estudante de escolas públicas pudesse esperar.
 

De raciocínio atípico, especialmente na área de exatas, conquistou uma bolsa de estudo em uma escola particular e, na sequência, foi para a Universidade de Harvard, onde se formou em astrofísica e ciências políticas. Voltou ao Brasil e se tornou uma das fundadoras do Mapa Educação, movimento social cujo foco é incentivar jovens estudantes a lutar por educação de qualidade.
 

Há tempos que a parlamentar percorre os corredores da educação encarando seus desafios. Aos 25 anos, é deputada federal por São Paulo, sendo a sexta candidata mais votada no estado em 2018.
 

A garra com que encara as complexidades da educação no Congresso fez com que a parlamentar colocasse o ministro da Educação, Ricardo Vélez Roríguez, contra a parede — em momento embaraçoso para o gestor da pasta.
 

Mas foi com uma voz doce de menina-moça que Tabata concedeu pausadamente a seguinte entrevista ao Portal CPP. 
 

Portal CPP: É admirável a maneira como jovens e adolescentes, de todas as classes sociais, enxergam você como um ícone. Eles a seguem nas redes sociais. Você os representa. Como será a sua participação no Congresso para que as próximas gerações tenham a oportunidade de estudar em escolas públicas dignas e capacitadas?

Tabata Amaral: Com o mandato temos a oportunidade não só de lutar pela educação, pelas mulheres, mas lutar por um país mais inclusivo, isso a gente faz cobrando o governo, fiscalizando, apresentando projeto de lei. Mas a gente também tem a oportunidade de trazer as pessoas para mais perto da política e mostrar a elas que este lugar também é para a gente, para os negros, para as mulheres, pra os periféricos, para os jovens. Aí entra o gabinete itinerante, uma iniciativa nossa que todos os sábados leva, num trailer, que é uma biblioteca itinerante, a formação política e ouve as pessoas que estão na ponta sobre o financiamento da educação, sobre dependência química etc.
 

O que deve ser feito para que a educação pública possa, de fato, estar à altura da necessidade do povo brasileiro?

O desafio que temos na educação é muito grande, mas acho que tudo se converge para o desafio da qualidade. Nos últimos anos o Brasil conseguiu colocar boa parte das crianças na escola; mas não estamos conseguindo manter os jovens na escola nem tampouco estamos conseguindo alcançar a qualidade. Para este ano eu tenho três eixos que são prioritários. Um deles é o financiamento da educação, porque a gente tem que sair desse discurso que de um lado diz que não tem dinheiro, o que não é verdade, e do outro de que o dinheiro que tem é suficiente, que também não é verdade. Há uma desigualdade muito grande no financiamento da educação, e com o vencimento do Fundeb, que é a principal fonte de financiamento para a Educação Básica no Brasil, no próximo ano, esse é um debate muito importante. Além disso, há duas áreas que eu quero focar porque acho que estão muito sub-representadas na política: uma delas é a valorização e a formação dos professores e a outra é a questão do ensino técnico profissionalizante.
 

Como você qualifica o Ensino Médio das escolas públicas, como pode melhorar? Como evitar o êxodo dos alunos?

O que mais me incomoda no ensino público brasileiro, especialmente no Ensino Médio, é que acaba sendo um ambiente onde os jovens têm os seus sonhos aniquilados. É comum você ouvir: "mas olha só de onde você vem, olha quem você é, olha quem são seus pais. Coloca os pés no chão". Meu sonho para o Ensino Médio é que seja, de fato, uma educação integral – que não é a mesma coisa que educação em tempo integral. Educação integral é através da arte, da música, da tutoria, da mentoria, que faz com que os alunos possam encontrar seus sonhos, que aprendam a ser criativos, que aprendam a aprender, a negociar, para que, de fato, saiam dali preparados para a vida, para o mercado de trabalho.
 

Especialistas apontam o Ensino Fundamental como a mola propulsora para o desenvolvimento educacional. Você concorda?

Quanto mais cedo a gente consegue intervir, mais chance o aluno tem de sair do mesmo ponto de partida. O Brasil é um país com uma desigualdade extrema que vem desde quando o bebê está na barriga, nos primeiros anos de sua infância. Tem um estudo, que nunca vou esquecer, que mostra a importância de a gente investir nos primeiros anos da educação. As crianças cujas mães passaram por uma gravidez estressante, num ambiente com drogas, crimes e violência, já nasciam com conexões neurológicas afetadas. De fato, a desigualdade começa muito cedo, é perpetuada muito cedo. Então, precisamos investir cada vez mais na Educação Básica.
 

Como você planeja colaborar com a educação pública a partir do seu ingresso no Congresso Nacional?

Mais uma vez, acho que o maior diferencial que a gente pode fazer na Câmara é mudar as práticas. É começar a ouvir professores, jovens, quem está na ponta, olhar para as evidências, para os dados e construir políticas públicas que às vezes não viralizam nas redes sociais, que não são rasas, que demoram para entender, mas que de fato enfrentam com coragem os problemas da educação. Alguns já mencionei.
 

Em sua visão, o que pode ser feito para melhorar a formação dos professores?

O Brasil quando comparado aos outros países tem uma das maiores porcentagens de formação técnica num currículo de formação docente. É claro que a parte técnica é importante, principalmente quando é complementada com uma atuação prática, em que o professor, de fato, é exposto à sala de aula e pode voltar para a sua formação e entender o que está acontecendo e ganhar repertório e etc. Então, a gente precisa de uma formação que seja mais prática, que continue ao longo da carreira. É importante ter um  outro professor na escola para mentorar os professores mais jovens, ter um acompanhamento dando feedback, fazendo avaliação, porque sem isso o professor tem pouquíssimo contato com o aluno ao longo da formação. Sabemos que hoje tem muitas formações de baixa qualidade. O professor chega à sala de aula, lida com alunos com as mais diferentes histórias, dificuldades, trajetórias de vida, e precisa se virar completamente sozinho. Então, a gente tem que falar de uma formação que complemente com essa parte prática, que possa dar ferramentas ao professor para saber lidar com toda essa diversidade ao longo da carreira.
 

Como estamos falando de professores, o que fazer para impulsionar a valorização desses profissionais?

Quando a gente fala de valorização, a gente fala, sim, de salário. Isso não deve ser um tabu. O professor recebe abaixo da média de profissões equivalentes, mas a gente fala, também, de um plano de carreira, onde fica claro o que você faz para se aperfeiçoar, para continuar a formação e ter condições de trabalho. Acho que este ano um tema muito forte na educação é a questão da violência, que não será resolvido delegando ao professor a função da segurança, armando o professor, mas dando o suporte, colocando psicólogos nas escolas, olhando para as evidências que existem e para os indícios que os alunos estão dando. Então, tudo isso tem a ver com a valorização desse profissional. Para que os jovens que estão saindo agora do Ensino Médio olhem e se vejam nessa profissão, que é das mais importantes que a gente tem.

 

Quais as suas expectativas do governo Bolsonaro em relação à educação?

O que mais me preocupa em relação ao governo Bolsonaro, em relação ao Ministério da Educação, é o tempo dedicado às questões puramente ideológicas, que fazem uma grande fumaça, que viralizam, que machucam os professores, que expõe a educação, mas que no final do dia não fazem nada, não fazem com que ninguém aprenda a ler e escrever, aprenda frações, tenham mais chances na vida. Então eu acho que esse é o principal risco; a gente pegar o pouco espaço que a educação tem hoje na agenda nacional e lotar esse espaço com questões ideológicas, com brigas, porque aí sim a gente nunca vai falar do que importa.
 

E da gestão Doria?

Ao contrário do que observamos no cenário Federal, a gestão estadual trouxe alguém de muita experiência em gestão em educação, que está construindo um planejamento estratégico. Nesse sentido, a gente precisa observar um pouco mais para entender como isso vai se dar, para então cobrar os resultados. Acho que vale notar que São Paulo caiu no ranking de matemática. Temos um longo caminho pela frente. Este é o ano que eu espero que o governo estadual trabalhe pela implementação para ajudar as cidades com a implementação da Base Comum Curricular e também o implemento do Ensino Médio de uma forma justa, garantindo que os jovens tenham mais oportunidades e não menos do que eles têm hoje.
 

Quais os mais preocupantes erros, cometidos por gestores, que comprometeram a qualidade da educação brasileira a ponto de chegar num lugar tão vexatório no ranking mundial?

Na minha visão uma das principais razões para a educação no Brasil ser de tão baixa qualidade tem a ver um pouco com a nossa sociedade. A geração dos meus pais, a geração que veio antes, em sua maioria, não teve acesso à educação, não chegou a completar o Ensino Médio, são pessoas que são analfabetas funcionais, e que aprenderam a falta que a escola faz, mas não o que uma escola de qualidade faz. Para os meus pais, que não fizeram o Ensino Médio, era muito bom que eu tivesse na escola. Já era um avanço. Mas como eles iriam julgar a qualidade dessa educação? E aí a gente tem um grupo político, um grupo empresarial etc. etc., que não faz essa demanda, que não vê a sociedade como um todo.

Coloco a minha esperança nos educadores, nos ativistas pela educação, entre os quais eu me coloco, nos jovens que estão saindo agora do Ensino Médio, do ensino superior, sentindo na pele a luta que foi conseguir aquela educação, a falta que uma educação de qualidade faz. Se a gente não se organiza, a gente nunca vai sair do ponto em que estamos, que é uma armadilha de alunos que passam doze anos pelo ensino público sem aprender frações, sem aprender a ler e a escrever. Com certeza para dar esse salto a gente vai ter que ter coragem para se comprometer com a educação, com os alunos, e não mais com o que faz sentido politicamente.

4 comentários

  • Link do comentário Leonardo Andrade Alves Quarta, 22 Maio 2019 08:10 postado por Leonardo Andrade Alves

    Excelente. O raciocínio em relação aos pais e avós eu já tenho quando falo de educação. So confirma q estou no caminho certo do entendimento rs.

    Obrigado, tabata!

    Tem meu apoio apesar de ser do RJ

  • Link do comentário Eligleice de Oliveira Maia Terça, 21 Maio 2019 14:45 postado por Eligleice de Oliveira Maia

    Parabéns Deputada vá em frente,
    acredito que esse é o caminho.

  • Link do comentário Antonio Carlos Almeida Terça, 21 Maio 2019 12:39 postado por Antonio Carlos Almeida

    Parabéns deputada pela entrevista focando os problemas educacionais com clareza e competência. Sou seu fã e eleitor das suas publicações.

  • Link do comentário GABRIEL Quinta, 11 Abril 2019 20:25 postado por GABRIEL

    FORMAÇÃO DE PROFESSORES TEM CERTEZA QUE É ISSO MESMO" ACHO QUE PRECISA PRIMEIRO CONHECER ESCOLA PÚBLICA NO BRASIL QUE É DIFERENTE DA
    ESCOLA PÚBLICA NOS E.U.A.

    O QUE TEM MAIS HOJE EM DIA SÃO PESSOAS QUE QUEREM MUDAR O MUNDO " LAMENTÁVEL" VÁ PRIMEIRO CONHECER A REALIDADE DAS ESCOLAS E DOS PROFESSORES