Quarta, 11 Novembro 2020 16:14

“Há um mercado do racismo em que os grupos lucram”

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“Há um mercado do racismo em que os grupos lucram” Foto: Mundo Negro

Professor e empresário, José Vicente é unanimidade como referência na qualificação e valorização do negro e de como inseri-lo no desafiador mercado de trabalho. Seu nome sobressai em todo o Brasil por seu profissionalismo; seu ponto de vista é respeitado por todas as mídias.

Para celebrar o Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, o Portal CPP o reitor e diretor geral e acadêmico da Faculdade Zumbi dos Palmares. Ele é advogado, doutor em Educação pela Unimep. Mestre em Administração (Metodista Piracicaba) e em Direito (Escola Paulista de Direito). É fundador e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, fundador presidente da Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural (Afrobras), fundador e titular do Movimento Todos Pela Educação.

Hoje, integra a Comissão Nacional de Acompanhamento e Controle Social do Prouni (Conap), o Conselho Consultivo do Departamento de Pesquisas Judiciárias do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Comissão de Acompanhamento da Política de Inclusão da Universidade de São Paulo (USP), o Conselho Superior de Estudos Avançados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o Conselho Consultivo do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) e outras entidades. A frente do intitulado Movimento Ar (Ações Concretas por Vidas Negras), que possui ações práticas de enfrentamento ao racismo.

Confira o que o dr. José Vicente opinou a respeito de alguns aspectos do afrodescendente brasileiro contemporâneo.
 
Portal CPP: Sua história de sucesso é a soma de determinação, superação de obstáculos e muito, muito trabalho, até chegar a se tornar um dos mais prestigiados e influentes do País. Qual é o fator mais importante e decisivo em sua trajetória?

Dr. José Vicente: Ambição e vontade inabalável de fazer a diferença, de mudar e transformar a trajetória e história dos negros no Brasil. O desejo profundo de que a justiça possa alcançar a todos e possa tratar todos de maneira igualitária e sem distinção de qualquer natureza. Muito menos pela raça ou cor de pele.


A Faculdade Zumbi dos Palmares é respeitada em todo o Brasil. Qual a ideia central em criar uma instituição de ensino com um perfil diferenciado?

Tentar combater e excluir a desigualdade racial. Construir um caminho diferente, novo e alternativo para conduzir as questões do acesso do negro ao ensino superior, à educação em geral. Inspirar e desafiar governo e sociedade a recepcionar e encaminhar com propriedade e assertividade as medidas e políticas de resolução dessa grande questão nacional.


Um quarto das escolas públicas do país não aborda o racismo em sala de aula. Como incentivar atividades que falem a respeito da relevância da igualdade racial?

É necessário um processo de convencimento e estimulação e é necessário também uma atitude de compromisso e cumprimento dos deveres e obrigações pessoal, profissional, institucional e legal, de todos. Mas é preciso, sobretudo, uma postura vigorosa da gestão, do gestor, da administração no trabalho de liderar e conduzir todos os atores na direção da implementação e cumprimento das suas atribuições e responsabilidades. É também importante avaliar o processo de desenvolvimento e mérito profissional ao cumprimento e alcance de metas e cronogramas para dentro dessa questão.


Por que até hoje a valorização da cultura africana e dos negros afrodescendentes não é ministrada nas escolas brasileiras?

Porque existe uma atitude equivocada de negação do racismo e seus impactos nas ações e práticas formativas e interativas, e também falta de segurança e convicção da sua emergência e do seu impacto danoso em todo ecossistema da educação. Assim, além da resistência em aceitar essa realidade, há também uma atitude de desqualificação e desvalidação da sua prioridade e do seu enfrentamento. Por isso, não são reservados recursos para treinamento, produção de material didático, qualificação dos quadros e construções de alternativas de educação.


O ano de 2020 é um ano memorável por diversos motivos. Nos Estados Unidos muita gente se levantou por meio de diferentes movimentos, de norte a sul do país, para se manifestar oposto à violência contra cidadãos negros. Movimentos fortes o bastante para repercutirem em todo o mundo. Por que o Brasil se mantém tímido em se mostrar antirracista?

Primeiro porque tem vergonha do seu racismo. Segundo porque não tem interesse em priorizar esse tema na agenda por conta do risco de perda de espaço de poder. E, terceiro, porque existe um mercado do racismo, em que os grupos de interesses de toda natureza lucram com ele. Combatê-lo exigiria compartilhar prerrogativas e privilégios e ambientes e espaços privativos de tranquilidade e conforto. E isso os grupos de interesses de poder não aceitam.


Um estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta que professores brancos são maioria nas escolas do Brasil. No Sudeste, apenas 32% dos docentes de escolas das regiões metropolitanas são negros. No Sul, o número é ainda mais baixo: 12,5%. O que é preciso para que as escolas brasileiras, públicas e privadas, tenham mais gestores e professores negros?

É preciso reconhecer que o racismo é uma realidade manifesta que distorce e deturpa os fundamentos da igualdade de oportunidades e da possibilidade da participação plural e diversa dos brasileiros. Logo, se constitui e se manifesta como uma transgressão aos valores democráticos e republicanos e se manifesta como uma interdição, um cerceamento, uma discriminação aos negros em razão de um sentimento e uma ação suportada por sobre a base da condescendência com o usufruto do ódio racial. Então é preciso política pública e estratégia educacional para preparar e garantir a presença democrática dos professores negros e brancos nos bancos escolares formativos e no interior das salas de aulas das escolas.


Na sua opinião, o que significa hoje para o jovem brasileiro a figura do Zumbi dos Palmares?

Orgulho. Honra. Potência, possibilidade e iluminação. Um herói genuinamente negro e virtuoso que olhou e luto pelos seus, que não subordinou as comodidades e tranquilidades do seu tempo. Que não tergiversou, que, em nenhum momento teve dúvidas em manter o caráter inegociável de sua dignidade, da sua condição de ser humano. Que diante do desafio e da necessidade de fazer escolhas, escolheu pela luta pelas suas ideias, convicções e sentido de justiça. Um herói grandioso que colocou a vida, a segurança, a esperança do seu povo e da sua comunidade à frente da sua. Alguém que não temeu a morte se ela pudesse ser a garantia de vida e da liberdade dele e de todos os seus.

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