Quinta, 04 Fevereiro 2021 11:32

Como avaliar um bom livro didático e seu êxito produtivo

Escrito por
Avalie este item
(11 votos)

Se tem alguém com muita habilidade para explanar sobre livros didáticos é, sem dúvida, a pesquisadora Lara Marin. Para escrever o livro: “A Cultura nos Livros Didáticos” a educadora pesquisou o tema profundamente e analisou 21 livros didáticos ao longo de um século, lançados no período entre 1912 a 2012.

O Portal CPP aproveitou a oportunidade para perguntar algumas peculiaridades de uma das mais preciosas ferramentas da educação brasileira em todos os tempos.

“Um uso amplo e real desse recurso pedagógico tão caro aos docentes”

Portal CPP: ao longo de suas pesquisas pela história dos livros didáticos brasileiros desde o início do século 20, qual a época mais produtiva, que mais agiu para o avanço do ensino público?

Lara Marin: Com relação à produção de livros didáticos, eu destacaria três: o primeiro é a criação do Instituto Nacional do Livro em 1937, o qual organizou e publicou enciclopédias e dicionários brasileiros, editou e importou livros estrangeiros e criou e manteve bibliotecas públicas no país. Todo este trabalho contribuiu de forma material e organizacional para a formação da civilidade brasileira e construção de uma cultura nacional por meio dos livros nas escolas.

Em seguida, temos o Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), criado em 1985 que, até hoje, aprova e legitima a produção editorial didática para as escolas públicas. Com ele, escolas e professoras podem escolher os livros didáticos que serão utilizados com seus estudantes, de forma a aquecer o mercado editorial didático e amparando o ensino público, possibilitando um uso amplo e real desse recurso pedagógico tão caro aos docentes.

Este plano foi sendo cada vez mais desenvolvido, até que em 1993 e 1994 foram definidos os critérios para a avaliação dos livros didáticos que seriam adquiridos pelo governo, criando-se em 1996 o Guia de Livros Didáticos, que, além de apresentar os livros publicados no triênio, também oferece uma avaliação feita por especialistas em educação sobre esses livros. Ainda nos anos 90, em 1997, é criado Plano Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), que oferece, até hoje, livros literários para as escolas públicas.

“Uma boa aula não é composta apenas de um bom livro didático, mas do uso que se faz desse material”

Brasil afora, o livro didático é o único apoio de muitos professores no processo de aprendizagem. Como analisar a qualidade de um livro didático?

Uma vez que o livro didático é um recurso pedagógico da professora e do professor, penso que um dos critérios de qualidade é o das orientações didáticas. O livro didático deve ser fundamentado em teorias educacionais e apresentá-las ao docente de forma clara e convicta para que ele possa utilizá-lo da melhor forma, deixando evidente, inclusive, que as escolhas são do professor e não determinando aquilo que o docente deve fazer, sem margem de opções. E, aqui, refiro-me tanto ao texto dos manuais do professor, que costumam aparecer ao final dos livros, quanto às explicações das atividades ao longo do livro do aluno. Além disso, penso que a organização do material é fundamental para que o professor possa localizar os conteúdos de forma clara.

Com relação às propostas em si, é importante o livro ter uma linguagem adequada ao seu público. Isso não quer dizer que deve ter seu conteúdo simplificado para crianças menores e denso para os jovens, mas ser compreendido pelo público ao qual se destina, evitando a clássica pergunta do aluno “Professora, o que é para fazer?”

No meu entendimento, um bom livro didático também é aquele que faz o estudante refletir e se empenhar para fazer as propostas, evitando perguntas retóricas e desafios simplificados. Além de ser visualmente compreensível e esteticamente organizado.

No entanto, é importante lembrar que uma boa aula não é composta apenas de um bom livro didático, mas do uso que se faz desse material. Então, de certa forma, aquilo que o livro didático propõe não será reproduzido fielmente pelos docentes em sala de aula. E nem deve. Todo professor adapta seus materiais à realidade do contexto onde trabalha. Já vi livros que considerei ruins serem muito bem utilizados em sala de aula. Mas, certamente, ter critérios bem definidos para sua qualidade, evita a circulação de livros medianos.

Com relação aos assuntos recorrentes que deveriam ser evitados, penso que em livros didáticos não cabem temas religiosos no sentido de formação de um pensamento religioso ou catequização, como a concepção criacionista do mundo e dos seres vivos, por exemplo, que temos visto ultimamente em alguns casos. Além disso, temas sem fundamentos científicos.

Atualmente, é muito comum um livro didático pedir a opinião do estudante sobre algum tema, sem fundamentá-lo ou problematizá-lo. Mas fazer isso sem contextualizar e trabalhar posteriormente pode confundir o aluno, gerando uma falsa sensação de verdade.

Por fim, propostas e conteúdos de caráter preconceituoso também deveriam ser evitados. Isso costuma ser mais recorrente de forma sutil, por meio de ilustrações que não representem a diversidade, ou apresentação de uma mesma cultura mais legitimada do que outra.

“Cabe ao docente ter um bom conhecimento dos conteúdos tratados no livro além de um bom conhecimento do seu corpo discente”

Como alcançar uma interação satisfatória entre o conteúdo do livro, o ponto de vista do professor e o conhecimento do aluno?

Acredito que este é o maior critério para identificarmos um bom livro didático e que determina o sucesso de sua utilização em sala de aula. Na minha concepção, equilibrar essa tríade depende do uso que o professor ou a professora fará do livro.

Cabe ao docente identificar e ter um bom conhecimento dos conteúdos tratados no livro e das atividades que ele sugere, além de um bom conhecimento do seu corpo discente. Tendo esse mapeamento em mãos, o professor irá selecionar apenas aquilo que entende ser um bom desafio possível para seus estudantes em cada momento de sua escolaridade, utilizando o livro da forma que julgar mais adequada para determinada turma.

Podendo ou não ser linear, usando de forma completa o livro, ou deixando páginas por fazer. Com relação ao ponto de vista do professor, ele pode concordar ou não com certos aspectos do livro didático, mas não é sua opinião que irá pautar suas escolhas, e sim um planejamento pedagógico que envolva o corpo docente e a equipe gestora da escola, podendo se amparar, também, nos parâmetros curriculares governamentais.

Lido 361 vezes

3 comentários

  • Link do comentário Espedita Iva da Silva Segunda, 08 Fevereiro 2021 16:22 postado por Espedita Iva da Silva

    Boa tarde,
    Gostei muito da forma como a pesquisadora argumentou suas respostas, pois o ambiente que cada livro didático percorre no Brasil não pode ter uma forma única, cabendo ao professor a melhor forma de utilizá-lo e não seguindo fielmente.

  • Link do comentário Maria Lúcia Sasseron Cabral Quinta, 04 Fevereiro 2021 21:28 postado por Maria Lúcia Sasseron Cabral

    Ótimas e úteis informações!

  • Link do comentário Nádea Chaud Quinta, 04 Fevereiro 2021 18:07 postado por Nádea Chaud

    Muito esclarecedora a entrevista. Objetiva e certeira nas perguntas, dá-nos uma boa dose do que vem a tratar o livro da autora através de suas respostas bem colocadas.

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.
Campo destinado a comentários relacionados à notícia. Duvidas sobre Vida Funcional devem ser encaminhadas aos respectivos setores.
Clique aqui para ver os contatos.