Quinta, 05 Outubro 2017 17:13

Epilepsia na escola: compreender para melhor educar

Leandro Silva
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ABE capacita professores da rede pública almejando diminuir preconceito voltado à doença que afeta 2% da população mundial

 

“Venha para a escola. Seu filho passou mal e está na enfermaria. Nós socorremos, ele está estável, mas precisa de você.” Esse foi o conteúdo do telefonema recebido pela neuropsicóloga Nivia Colin no dia em que o filho caçula, então com 12 anos, teve crise epilética durante aula de educação física, na quadra.

No colégio, a mãe deparou com um garoto assustado; era a primeira vez que complicação do tipo ocorria no ambiente escolar. A equipe pedagógica de uma rede de ensino privada de São Paulo, entretanto, transmitiu segurança. Coordenação e professores mostraram preparo para lidar com epilepsia. Haviam sido orientados pela família do adolescente.

A doença foi descoberta quando o menino, hoje com 15 anos, teve a primeira crise convulsiva, aos sete — até então, o problema se passava durante o sono, o que dificultava percepção de familiares. O diagnóstico levou os pais a se preocuparem, dentre outros fatores, com a sociabilidade da criança, isto é, a vida escolar. Preocupação que se tornou drama até que escola receptiva ao tema fosse encontrada.

Nivia mudou o filho do colégio onde ele estudava desde os três anos porque a coordenação não admitia. “Só se preocupavam com nota e currículo”, relata, lembrando-se de ouvir frase de alívio quando comunicou da decisão. A busca por outras escolas, todas privadas, no entanto, foi difícil. “Vi vagas se esgotarem quando eu terminava de falar sobre o que poderia acontecer.”

Se a doença é tabu em escolas particulares, que geralmente dispõem de estrutura avançada, o cenário é mais complexo na rede pública, em que muitas vezes nem o básico da Educação é assegurado pelo governo. Servidores são desvalorizados — como no estado de São Paulo, onde o governador Geraldo Alckmin (PSDB) não reajusta o salário de professores desde 2014 —, há prédios precários, casos crescentes de violência, falta material didático.

Na tentativa de superar objeções, a Associação Brasileira de Epilepsia (ABE) iniciou em março deste ano programa de capacitação de autoridades e funcionários escolares para inclusão de crianças e adolescentes com epilepsia no contexto escolar. A iniciativa compreende 92 escolas da rede pública de São Paulo com palestras e materiais de apoio para educadores. O foco é claro: reduzir preconceito.

De acordo com Laura Guilhoto, neurologista infantil e presidente de honra da ABE, a epilepsia é conhecida desde a antiguidade, quando Hipócrates, considerado pai da medicina, já falava 400 anos antes de Cristo que ela era causada por problema no cérebro. O órgão é composto por bilhões de neurônios que se comunicam por sinais elétricos. Quando há descarga súbita, que interrompe atividades naturais das células, o indivíduo sofre mudança de comportamento ou nos movimentos, chamada de crise epilética.

Cada pessoa, porém, apresenta sintomas variáveis conforme a gravidade da doença, que pode ser genética, consequência de traumas cranianos ou infecções ao longo de toda a vida. A crise pode ser branda, denominada de ausência, provocando lapsos de memória, rápido piscar de olhos, movimentos repetitivos que duram segundos, entre outros; e generalizada convulsiva, conhecida por leigos, que se manifesta por queda abrupta, rigidez do corpo (às vezes com liberação de urina) e movimentos mastigatórios que duram segundos ou minutos.

Apesar disso, segundo Laura, ainda atribuem a doença a fatores espirituais ou distúrbio contagioso, o que justifica necessidade de propagar informação, sobretudo entre educadores. Atualmente, estima-se que 2% da população mundial tenham epilepsia, índice que representa quatro milhões de pessoas no Brasil. Isso significa que uma escola com mil alunos, por exemplo, pode ter até 20 deles com a doença.

Embora não tenha cura, a epilepsia é controlada pela maior parte das pessoas por tratamento medicamentoso. Um terço dos casos, contudo, é grave, ou seja, de pessoas que tomam remédio e mesmo assim têm crises recorrentes. De 20 estudantes, portanto, sete poderiam estar nessa condição.

“Crises generalizadas em colégios podem suscitar estranhamento de coleguinhas, seguido de bullying. É fundamental que professores saibam lidar e trabalhem pela conscientização. Se aconteceu na frente de todos, por exemplo, o professor pode abordar isso em aula. O ambiente é ideal para se combater preconceitos”, afirma Laura, chamando atenção para o fato de que não há relação com deficiência ou deterioração mental. "Machado de Assis, Sócrates, Dostoiévski... todos tinham. Está aí inclusive ótimo gancho educativo."

A médica reforça ainda possibilidade de auxílio a famílias, uma vez que crises de ausência podem ser imperceptíveis para pais e mães. “Às vezes, uma criança pode demonstrar falta de atenção em sala de aula ou parecer estar sonhando acordada porque tem epilepsia. Com informação adequada, o professor multiplica conhecimento e promove qualidade de vida.”

O programa de capacitação é desenvolvido em três etapas. Na primeira, diretores, coordenadores pedagógicos, mediadores e inspetores são treinados pela ABE; depois, essa equipe habilitada divulga o conhecimento para professores e funcionários da unidade escolar; por fim, educadores promovem atividades em classe que abranjam alunos e família. 

Além de palestras presenciais, professores recebem materiais impressos. Com três capítulos, o informativo explica detalhadamente o que é epilepsia e qual a melhor forma de lidar com a doença na escola. Se presenciar crises agudas, por exemplo, o professor deve manter a calma, colocar o estudante de lado com a cabeça elevada, que favoreça escoamento da saliva, e esperar passar. Colocar objetos na boca da pessoa e puxar a língua são atos proibidos. "Só aumenta risco de ferimentos, não ajuda em nada. Mitos", alerta Laura.


A Diretoria de Ensino Sul 2, no Campo Belo, capital de SP, participou dos trabalhos. O interesse foi imediato porque havia histórico de uma aluna com crises constantes em uma unidade escolar da regional. O projeto envolveu professores-coordenadores, professores de sala de recursos, agentes de organização escolar, mediadores e vice-diretores do programa Escola da Família. No total, foram 224 multiplicadores de conhecimento. "A doença é estigmatizada. Trabalhar o assunto pedagogicamente é fundamental. É bom para quem educa e consequentemente para toda a comunidade", diz Rita Bomfim, integrante do Núcleo Pedagógico.


PRIORIDADE

Por ser mais comum em países e regiões pobres, por falta de assistência à saúde (partos de risco sujeitos a traumas, por exemplo), a epilepsia foi classificada em 2015 como doença prioritária pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, todavia, o problema está longe de ser adotado como política pública. A assistente social da disciplina de neurologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Regina Silvia Alves de Lima, afirma que na fila de prioridades do País, a epilepsia está no final. "Quando batemos à porta de autoridades da Saúde, a resposta é sempre a mesma: há casos mais graves". 

 
Professores interessados no projeto podem entrar em contato com a ABE por meio do site e da página no Facebook. Campanhas de apoio à causa também estão disponíveis, como as comunidades Mães da Epilepsia e Conviva com Epilepsia

3 comentários

  • Link do comentário jordane gomes Sexta, 06 Outubro 2017 16:38 postado por jordane gomes

    Amei, aqui no Ceará tem muita pouca informação, tenho que colocar meu filho num colégio particular por que a rede publica não tem estrutura. Se eu tentar levá - lo, vão trata-lo como uma criança especial com dificuldade de aprendizagem o que não é o caso dele.

  • Link do comentário ADRIANA BACHMANN Sexta, 06 Outubro 2017 13:36 postado por ADRIANA BACHMANN

    Parabéns pela iniciativa, queria comunicar que este trabalho de palestras informativas dentro das escolas , esta sendo realizado desde 2016 em Olinda ,na rede municipal de ensino , através do MAPE PE , com o apoio de diversas secretarias do Município de Olinda.
    Adriana Bachmann
    Coordenadora do MAPE PE ,

  • Link do comentário luciana de souza barreto Sexta, 06 Outubro 2017 01:25 postado por luciana de souza barreto

    Quando chegará na sul 3? Gostaria muito de participar do Projeto. grata.
    Resposta CPP: encaminhamos e-mail com informações sobre contato com a ABE. Um abraço!

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