Segunda, 14 Setembro 2020 15:34

Classe média envia filhos à escola pública 10 vezes mais que em 2019

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A crise econômica provocada pela Covid-19 fez com que milhares de famílias de classe média que tinham seus filhos em escolas particulares não conseguissem mais pagar as mensalidades.

Muitos estudantes já foram transferidos para a rede pública, outros devem fazer esse movimento no próximo ano.


Não existem números nacionais sobre o assunto, mas só a rede estadual de São Paulo recebeu mais de 9.000 transferências do início do ano até agosto —dez vezes mais do que o registrado em 2019.


A rede municipal da capital recebeu até julho 8.300 novas matrículas para a educação infantil, quase o dobro do número registrado no mesmo período do ano anterior —a Secretaria Municipal de Educação não registra, porém, se a criança já estava matriculada em outra rede ou se é um aluno que está entrando na escola pela primeira vez.


Seja na rede estadual ou municipal de São Paulo, as secretarias de educação têm a obrigação legal de garantir as vagas para todas as crianças com mais de 4 anos.


Henrique Pimentel Filho, subsecretário de articulação regional da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, diz que a recomendação para as famílias é evitar transferências no meio do ano. Segundo ele, durante a pandemia o governo facilitou o pedido de transferências, que agora é feito 100% online.


“É melhor para o estudante que ele conclua o ano com seus colegas, seus professores. Mas é papel do estado garantir a educação para todos. Por isso, orientamos nossos professores a fazer um trabalho de acolhimento com os estudantes que estão chegando na rede no meio do ano”, diz.


Ainda que no momento as aulas estejam 100% remotas, o sistema só permite a entrada de novos estudantes em instituições onde existam vagas físicas. “O aluno vai automaticamente para a escola com vagas mais perto de sua casa”, diz Pimentel Filho.


Embora não divulgue oficialmente projeções, o governo diz estar preparado para um eventual aumento de pedidos de matrícula no próximo ano letivo.


“Temos escolas subutilizadas no estado. Vamos conseguir garantir o atendimento. Esses colégios, em geral, ficam nas regiões mais centrais, que é de onde têm vindo os pedidos de transferência. Hoje, as escolas mais cheias ficam nas regiões mais afastadas, áreas de onde não tem havido nova demanda, porque a maioria da população já frequentava a rede pública antes da pandemia”, explica.

A rede estadual tem 3,5 milhões de estudantes. Há dez anos, eram 4,7 milhões.


Benjamin Ribeiro, presidente do Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo), que congrega estabelecimentos particulares, acredita que a situação deve ser transitória.


“Há 20 anos que a participação da escolas particulares vem crescendo. Só tivemos um ano sem aumento de matrículas, por causa da crise econômica, mas no ano seguinte houve recuperação”, afirma. Em 2017, as matrículas na rede privada caíram 1,2%.


O conselho que Ribeiro dá a escolas e pais é tentar negociar. “As famílias precisam entender que as mensalidades são a única fonte de financiamento dos colégios”, diz ele.


“As instituições, por sua vez, precisam tentar acolher ao máximo as famílias. Minha experiência mostra que esses pais acabam voltando assim que se reequilibram financeiramente”, completa.


Apesar de não ter sido uma escolha fácil, algumas famílias relatam ter se surpreendido com a qualidade da rede pública e já imaginam que os filhos possam seguir nela a médio ou longo prazo.


Logo no início da pandemia, o servidor público Guilherme Castro Júnior, 41, transferiu os filhos gêmeos de 4 anos para uma escola da rede municipal de São Bernardo do Campo (Grande São Paulo).
“Minha esposa ficou desempregada. Com a queda de renda, não fazia sentido mantê-los na particular”, diz.


Em maio, Guilherme decidiu transferir também a filha mais velha, de 8 anos. “Ficamos tristes em tirar a Manuela da escola, porque antes ela estava se desenvolvendo bem. Mas logo tivemos boas surpresas com a qualidade das aulas online, dos professores e com o nível de conhecimento dos colegas”, afirma.


Já outros pais gostariam que a transferência para a rede pública fosse apenas uma situação transitória.

Sem conseguir pagar as mensalidades, Clarice Silva de Assis, 52, professora em Itaquaquecetuba (Grande São Paulo), transferiu em julho o filho de 16 anos, que estava no 2º ano do ensino médio em um colégio particular adventista para a rede estadual.


“Meu marido é comerciante, nossa renda familiar foi reduzida drasticamente. Tentamos negociar com a escola, mas só ofereceram 10% de desconto”, conta. A intenção da família é que o filho volte para o colégio particular no próximo ano, mas não sabem se vai ser possível.


“Dei aula por 32 anos no primeiro ciclo da rede estadual, tenho certeza que a maioria dos professores é compromissado, que o ensino é bom. O que pesa mais são as companhias. Meu filho é religioso, tinha muitos amigos, tocava nos eventos da escola”, diz a mãe.

Fonte: Folha de São Paulo

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