Quinta, 19 Novembro 2020 16:26

De amas de leite a professoras, quantas pedras há no caminho?

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De amas de leite a professoras, quantas pedras há no caminho? Ana Luiza Santos/Arquivo Pessoal

Pouquíssimas pessoas sabem que a primeira romancista brasileira foi Maria Firmina dos Reis (1822-1917), negra, pioneira como professora do magistério maranhense.

Segundo a coluna do Coletivo Professora Adélia de França, “a legislação brasileira em diversos momentos da história negou e/ou dificultou o acesso à escolarização para pessoas negras”.

“Todavia, ainda que de forma desigual, esses sujeitos estiveram presentes nos bancos escolares, formal ou informalmente, em institutos particulares ou públicos, inclusive no Período da Colonização e do Império, o que já foi comprovado por vários estudos. À medida que a pessoa negra passa a ter acesso à escola e às políticas excludentes da educação básica, vem proporcionalmente diminuindo a qualidade da educação. A formação dos professores tem apresentado falhas que não colaboram com a melhoria tanto do docente quanto do discente. Soma-se a isso a desvalorização do magistério que se deteriorou no governo atual e que cada vez menos atrai profissionais que queiram se dedicar à função."

De amas de leite até atuarem como professoras, as mulheres negras vivem dificuldades para ter ascensão na vida profissional na educação. Para aniquilar o racismo na escola, especialistas defendem a criação de uma pedagogia antirracista, em que o racismo seja combatido e pessoas negras sintam-se representadas. O primeiro passo é aumentar o número de negros no corpo docente.

Para Marlene Rodrigues da Silva, professora e coordenadora da área de Linguagens da Escola Estadual Teotônio Alves Pereira, na capital paulista, nunca teve dificuldade em trabalhar.

“Sei que algumas colegas negras, mesmo de outras áreas, têm dificuldades na ascensão social e profissional. Não posso dizer que seja a cor da pele. Em certos setores da sociedade existem poucos negros em alguns setores da sociedade. Depois que entrei para o magistério, não tive nenhuma dificuldade. Sempre trabalhei em escola estadual. No estado não tem esse problema de cor de pele. Sei que muitas escolas particulares têm pouca representatividade de professores negros. Em cada 10, talvez 1 tenha um negro. As cotas raciais ainda não atingem os seus objetivos. Muitas pessoas são contra as cotas raciais. Acho que deveriam ser repensadas. Muitos negros são discriminados na faculdade porque, além de serem minoria, sofrem preconceito. Quando fiz pós- graduação eu era a única negra. Acredito que as cotas precisam ser repensadas não para tirar, mas para melhorar. O racismo na sociedade acaba sendo sutil, como nas escolas. Pessoas usam palavras pejorativas, “olha lá o neguinho”. As mulheres negras são notadas pelos peitos, pelo bumbum, pelo jeito de dançar. A sensualidade da mulher negra acaba atrapalhando. O Brasil está longe de valorizar o negro. Veja no Senado, há poucos negros, gerentes, poucos, na televisão, dá para contar nos dedos os âncoras negros no jornalismo. Isso precisa ser repensado. Precisa melhorar.”

O Portal CPP ouviu a especialista Anna Luiza Santos de Oliveira, Doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos e Mestra e Bacharel em Museologia. Anna também é professora e pesquisadora da área de Museologia Social, gênero e raça e trabalha com investigação da memória de mulheres negras.

Para Anna, a história do negro brasileiro foi silenciada e a memória apagada. “Historicamente nós, pessoas negras, passamos por um processo de silenciamento e apagamento de nossa história e memória e, consequentemente, as relações sociais foram afetadas pelo racismo dentro da estrutura de uma identidade que estava em formação junto à ideia de nação. Isso teve desdobramentos em todos os aspectos de nossas vidas, inclusive em relação à classe. Fomos subalternizadas e, com isso, o acesso à educação foi escasso, logo, sem formação, a inclusão no mercado de trabalho se tornou difícil e a situação passou a ser um ciclo. Ao longo dos anos mulheres e homens negros lutaram se organizando em grupos e movimentos sociais para combater esse movimento cíclico, esse processo eu considero um movimento de resistência. Uma forma de essas demandas serem encaminhadas e de fato gerarem mudanças é a formação de um corpo docente enegrecido em todas as categorias de educação. Pessoas negras se organizaram e se organizam de forma coletiva na busca pelo acesso e permanência na educação em todos os níveis, ocupando cadeiras docentes podemos exercer uma pedagogia baseada no antirracismo. Toda a minha formação usufruí dos resultados da luta negra que me antecedeu, estudei em escola pública tendo acesso a conteúdos acerca de minha identidade racial que estavam previstos por lei, fiz curso pré-vestibular público e ingressei na universidade a partir do sistema de cotas, bem como minha permanência foi assegurada a partir de políticas públicas para discentes em situação de vulnerabilidade. No mestrado e doutorado também ingressei com a utilização do sistema de cotas raciais, e, além disso, desenvolvo pesquisa científica a partir de uma perspectiva antirracista assim, junto a tantas outras colegas de profissão reafirmo o lugar de demarcação de território racial dentro da academia e com minhas alunas posso analisar a obra da ama de leite a partir de um discurso contra hegemônico que desbanca a supremacia branca. A minha existência é resultado da resistência de militantes negras que me antecederam."

“Todas as disciplinas escolares incluem a pauta do antirracismo mas, para que isso acontecesse, foi necessária a criação de uma lei”.
Aprovada em 2003, a Lei 10.639/03 inclui no currículo oficial da Rede de Ensino (pública e particular, nos ensinos fundamental e médio) a obrigatoriedade das temáticas de História e Cultura Africana e Afrobrasileira. O foco é promover a luta da população negra no Brasil e o embasamento da sociedade social, econômica e politicamente. Volto a falar em historicidade, nossa história e memória foi tão silenciada que ela não aparece nas estruturas das relações sociais brasileiras, isso inclui ciência, educação, economia, direitos básicos, formações territoriais e culturais. Quando se fala em negritude imediatamente estamos falando em subalternidades, periferias, corpos dissidentes, ausências nas ciências e na saúde de modo geral, e a realidade não é bem assim, pessoas negras participaram e participam de todos os campos de evolução científica, intelectual e social. Na educação temos um grande contingente de docentes brancos, logo questões raciais não é uma pauta que faz parte do cotidiano dessas pessoas e sendo assim, não se sente a necessidade de abordar qualquer tema dentro da sala incluindo questões raciais neles. Todas as disciplinas escolares incluem a pauta do antirracismo das exatas às humanidades, mas para que isso acontecesse foi necessária a criação de uma lei, e ainda assim ela se restringe ao mês de novembro nos calendários escolares. Basta observamos como as estruturas de administração e de docência estão formadas; em sua maioria são pessoas brancas – e despreocupadas com a pauta antirracista – por isso a lei não é cumprida em sua totalidade.

Trecho de uma publicação da Revista Humanidades e Inovação v.6 de 2019, afirma: “Na sociedade atual, a professora negra além de lidar com todos esses preconceitos, ainda sofre o processo de desprofissionalização do magistério, que acaba por desvalorizar a profissão docente. Ser docente já não é fácil diante de tantas adversidades pelo qual passa a profissão atualmente, sendo negra e ainda mulher, tudo fica ainda mais difícil, principalmente, quando, vale lembrar, vivemos em um país chamado Brasil, que é preconceituoso e se diz democrático.”

Anna argumenta: “Os desafios são muitos! Estamos passando por um momento de retrocesso onde garantias de direitos legais estão sendo revogadas, invalidando anos de lutas de diversas categorias, e isso inclui a categoria docente. Nos últimos anos professores de todo país passaram a viver presenciando o desmonte arquitetado da educação, todos os dias temos que travar uma luta diferente para tentar manter as nossas diretrizes. Podemos observar várias frentes de luta contra o processo de desprofissionalização do magistério, sindicatos de todo país se organizam, e temos uma luta unificada que parte do princípio de que educação não é mercadoria. Para a categoria docente de mulheres negras essa luta é ainda maior, os desafios incluem pautas específicas de gênero e raça, e na perspectiva de interseccionalidades não podemos descansar no que tange qualquer um desses aspectos, precisamos permanecer vigilantes quanto à participação política, inserção e permanência de mulheres negras no mercado de trabalho e, além disso, o acesso pleno a seus direitos e, ainda mais, a luta constante contra a mercantilização da educação, tudo isso em um país onde o mito da democracia racial segue firme.

Segundo a consultoria Talenses, no Brasil, somente 5% dos presidentes de 532 grandes empresas brasileiras são negros e apenas 2% ocupam postos em conselhos de administração. O racismo estrutural no mercado de trabalho tem proporções homéricas.

A pesquisadora explica como mudar essa conjuntura: “Existem diversas formas de reverter esse quadro, apesar do momento de retrocesso que vivemos, algumas delas seguem em atividade. A garantia de acesso e permanência de jovens negras no ensino superior e em pós-graduações é um aumento de percentual de mão de obra qualificada e enegrecida para o mercado de trabalho. A existência de mais professoras negras no ensino básico é um aumento de percentual de acesso de jovens negras ao ensino superior. A existência de programas de combate a fome, o trabalho infantil e a pobreza é um aumento de percentual de crianças e adolescentes presentes nas escolas. Vivo esse processo de reversão, sou de uma geração – como dito antes – que teve acesso a todos esses programas sociais, que só passaram a existir depois de muitas lutas de movimentos sociais. O grande desafio que vejo está nos cargos de chefias e de recrutamento dessas grandes empresas, enquanto essas forem de pessoas brancas, não adianta termos pessoas negras qualificadas para ocuparem esses espaços, a branquitude não nos enxerga, por isso acredito numa luta que parta do principio da criação de diretrizes e políticas públicas que garantam o acesso de pessoas negras a esses cargos, é o mínimo que se pode fazer em resposta a nós população negra, questão de reparação histórica. Para encerrar e ilustrar tudo que eu disse até aqui, vou repetir uma frase que pessoas podem ver constantemente pelas ruas de Cachoeira/BA e que faz parte da pauta do movimento negro local: “Cotas é só o começo, vocês nos devem até a alma”, seguimos trabalhando, existindo e resistindo.”

A professora aposentada Catia Elizabeth Marcello Loureiro atua como PAE junto à Escola Estadual Olympia Barth de Oliveira e Escola São Vicente, ambas em Americana, S. Paulo, com alunos TEA e Síndrome de Down, chama a atenção para o preconceito racial nas escolas. 

"Hoje há uma busca muito grande pela diversidade e do empoderamento das minorias. No entanto, apesar da sociedade estar passando por um contexto de mudanças, o preconceito ainda está presente em todo o lugar, e na sala de aula não é diferente. Isso acontece porque em alguns espaços da nossa sociedade que ainda são propícios ao surgimento da discriminação. A escola pode ser um ambiente em que as crianças e adolescentes exercem enorme pressão dos pares uns sobre os outros. Mas a escola também é um lugar de de formação e aprendizado. Assim também conta com ótimas oportunidades voltadas para o combate ao preconceito.

É preciso que os educadores se atentem à manifestações de bulliyng e situações de isolamento causados pelo preconceito. Uma vez que as atitudes dos adultos refletem nos alunos, é importante que a escola mantenha um bom relacionamento com a família. Mesmo 130 anos após da escravidão ainda não fizemos da Educação um caminho para eliminar a desigualdade entre brancos e negros. O acesso à Educação de qualidade é um direito de todos os brasileiros, mas na prática sabemos que isso não acontece. Após esse período a desigualdade ainda persiste na nossa sociedade e, portanto, também na escola pública. É essencial colocar em prática as leis que buscam combate ao preconceito racial nas escolas. A Lei 10.639, sancionada em 2003, por exemplo, determina o ensino obrigatório da cultura e história afrobrasileira nas escolas. Destaca-se a importância da escola em promover condições para o aprendizado dada a situação de vulnerabilidade de muitos alunos negros de classes sociais mais baixas".

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