Quinta, 14 Janeiro 2021 16:14

Com pandemia, ensino pode recuar até quatro anos, diz estudo

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Com pandemia, ensino pode recuar até quatro anos, diz estudo Escolas fechadas e ensino remoto prejudicaram aprendizagem de estudantes Rogério Galasse/Futura Press/Estadão Conteúdo

De acordo com pesquisa desenvolvida pela FVG e pela Fundação Lemann, tal agravamento é resultado das dificuldades de acesso ao ensino remoto


Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendada pela Fundação Lemann, mostra que a educação brasileira pode retroceder até quatro anos nos níveis de aprendizagem devido à necessidade de suspensão das aulas presenciais na pandemia, com o agravante da dificuldade no acesso ao ensino remoto. Esse é considerado o pior cenário, em que os estudantes não teriam aprendido o conteúdo durante o ensino remoto. O impacto é maior entre negros e alunos com mães que não concluíram o ensino fundamental.

A partir dos dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), foi possível simular uma perda equivalente ao retorno à proficiência brasileira na avaliação de quatro anos atrás em língua portuguesa e de três anos em matemática, do 5º ao 9º ano do ensino fundamental, considerando o pior dos cenários, chamado pessimista.

Em uma estimativa intermediária, os componentes curriculares teriam uma queda equivalente ao retorno à proficiência brasileira de três anos atrás. Mesmo no cenário otimista, em que os alunos teriam aprendido por meio do ensino remoto tanto quanto aprendem no presencial, a educação também pode ter perdido três anos em língua portuguesa.

Em outro modelo de apresentação de resultados, o estudo mostrou que tanto os alunos dos anos finais (do 5º ao 9º) do ensino fundamental quanto aqueles do ensino médio podem ter deixado de aprender o equivalente a 72% do aprendizado de um ano típico, em língua portuguesa e matemática, considerando o pior cenário. No cenário intermediário, o percentual ficou em 34% e 33%, respectivamente. Considerando o cenário otimista, a perda do aprendizado ficaria em 14% e 15%.

O diretor de Políticas Educacionais na Fundação Lemann, Daniel de Bonis, considera que o ensino remoto reduz os prejuízos do fechamento das escolas, mas não é um substituto da escola, do professor e do ensino presencial. "A simulação mostra que, dependendo da qualidade do ensino remoto e do nível de dedicação dos estudantes, ele pode reduzir até substancialmente esse prejuízo com o fechamento das escolas, mas não substitui a escola, você vai continuar tendo um prejuízo", diz.

A primeira conclusão do estudo é que a interrupção das aulas leva a uma redução significativa no aprendizado dos alunos. "Em segundo lugar, entendemos que, em um cenário de interrupção das aulas presenciais, o aprendizado dos alunos depende do acesso ao ensino remoto e esse acesso é desigual no Brasil, como evidenciado pelos dados da Pnad Covid-19", afirmou André Portela, pesquisador líder do estudo e professor titular de Políticas Públicas da Escola de Economia de São Paulo, da FGV.

"Por fim, analisando dados do Saeb, concluímos que, em 2020, o crescimento do aprendizado dos alunos brasileiros poderá desacelerar ou mesmo retroceder. Esse resultado ocorre de maneira desigual no país, afetando mais fortemente os menos favorecidos. Assim, esforços para mitigar essa perda e garantir o acesso a um ensino remoto de qualidade a todos são urgentes, de modo a evitar a perda de aprendizado e o aumento das desigualdades educacionais", acrescentou Portela.

Os grupos populacionais mais prejudicados foram os do sexo masculino, pardos, pretos e indígenas, com mães que não finalizaram o ensino fundamental. Os menos prejudicados são, na maioria dos casos, do sexo feminino, que se declararam brancas, com mães com pelo menos ensino médio completo. "No caso daqueles que não tiveram acesso nem mesmo a ensino remoto, esse prejuízo pode ser muito grande. É claro que a gente sabe que, em uma realidade como a brasileira, essa situação acaba sendo muito desigual, porque nem todas as famílias têm condições de ter esse acesso e com qualidade", disse o diretor da Fundação Lemann.

Ele citou a questão da oferta de conectividade como fator determinante para que os estudantes de famílias mais pobres tenham acesso às videoaulas, que são disponibilizadas de forma online, em sites ou aplicativos. "O acesso a um aplicativo exige consumo de dados e nem todos os estados brasileiros conseguiram financiar as famílias para que elas pudessem usar os aplicativos sem consumir do seu plano".

"Em São Paulo, o estado conseguiu fazer um acordo com as telefônicas, pagando dentro do seu contrato, para que o uso do aplicativo da Secretaria de Educação não fosse contabilizado como consumo do plano de dados, mas isso é porque foi colocado recurso público. Em nível nacional, não tivemos uma iniciativa semelhante, então depende de cada estado ter financiado isso para as famílias", acrescentou.

A desigualdade aparece também nos cálculos feitos para cada um dos estados brasileiros. Em ambas as etapas de ensino, os alunos das regiões Norte e Nordeste deixaram de aprender mais que alunos do Sul e Sudeste.

POSIÇÃO DO CPP

A diretoria do Centro do Professorado Paulista tem plena ciência de que não há dúvidas que a pandemia deixará retrocesso na educação do país. Mas o contexto da pandemia, com a disseminação da Covid-19, criou um cenário emergencial e completamente novo.

Ficou bem evidente que a tecnologia não substituirá o professor de forma alguma. Pelo contrário, a tecnologia é mais uma ferramenta que veio agregar no futuro. Os professores têm o desafio de disponibilizar atividades não presenciais para os estudantes, a fim de garantir o acesso à atividades pedagógicas no período de isolamento social que vivenciamos enquanto não chega a vacina para combater o novo coronavírus.

Educação é uma ação de todos os atores envolvidos, professores, alunos, escola, família e comunidade escolar. Essa união já é determinante em tempos de aulas presenciais, e ganha ainda mais relevância neste período de pandemia. Uma prática dessa magnitude exige acompanhamento e pequenos ajustes — que se fazem necessários de forma permanente. Infelizmente, a pandemia trouxe muitos desafios, mas também inúmeras possibilidades de mudanças.

Segundo a professora Loretana Paolieri Pancera, primeira vice-presidente do CPP, os tempos requerem ousadia. "Uma jornada de trabalho intensa, com todos querendo dar o seu melhor, muitas dúvidas, ansiedade,  preocupações, mas também muita entrega. Os professores fizeram e fazem o seu melhor, foram verdadeiros heróis durante esses meses em que vivemos um mundo incerto", disse. 

Para Silvio dos Santos Martins, segundo vice-presidente da entidade, o momento requer sensibilização, responsabilidade e muito diálogo entre Ministério da Educação, secretarias estaduais e municipais. "Que o momento remoto sirva de ressignificação do conhecimento para os educadores", afirmou.

#VidasNãoSeRecuperam. Vacinação Já!

Fonte: Agência Brasil

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