Segunda, 25 Junho 2018 10:43

Por que o Brasil não alfabetiza?

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Janaína Spolidorio

1. Metodologia

Temos um CARNAVAL de métodos, com poucos resultados. Ainda no século XIX foi criada uma metodologia baseada em silabação. Ela era ótima, porque foi elaborada para dar conta da demanda da época, que sofria mudanças com pensamentos ligados à revolução industrial, seguia a filosofia de produção em série, até o sinal da fábrica, me indicava intervalos, a escola adotou. E esta metodologia tinha resultados, até que graves falhas começaram a ocorrer, pouco depois de meados do século XX – mas este é outro assunto!

Em seguida, percebeu-se que o método das sílabas não era apropriado mais e surgiu uma lacuna, que tentou ser preenchida por várias sugestões, algumas que partiam das próprias sílabas e outras um pouco mais ousadas, com uma maior contextualização.

No final dos anos 80, início dos 90, uma ideia totalmente diferente entrou em pauta nas salas de alfabetização. Emília Ferreiro, baseada em estudos de Piaget, trouxe estudos que eram baseados em como a criança aprende e aquilo parecia fazer total sentido para o que era necessário ter nas escolas – para os teóricos! Realmente, fazia total sentido e ela tem um grande crédito na educação, mas acontece que os educadores responsáveis por utilizar foram treinados para alfabetizar de uma outra forma e muitos já tinham montado até métodos próprios, que tinham bons resultados, e eram resistentes ao uso. Desta forma, ao serem obrigados a utilizar algo que ainda não compreendiam, aumentaram ainda mais a lacuna educacional. Com o passar dos anos, o que era chamado de proposta sócio construtivista virou uma metodologia e atualmente já está bastante avançada, embora ainda haja controvérsias sobre a metodologia.

Depois de mais de 20 anos de metodologia construtivista, formando pessoas que ficaram imersas nesta forma de aprender e que finalmente podem compreender melhor a proposta, em um momento de desespero total, o nosso governo faz uma ressuscitação: como há muitas dúvidas sobre a eficiência da metodologia construtivista, em lugar de evolui-la ou melhor preparar o alfabetizador, o mais fácil foi trazer de volta a silabação, aquela criada em 1880 para alfabetizar “em série”. Considerando que cada vez mais necessitamos de assistência personalizada, que já sabemos que cada pessoa aprende de forma diferente e que decidiram usar uma metodologia de uma época em que nem energia elétrica existia para pessoas que têm até contato com realidade aumentada e internet das coisas, pense bem o que virou... um CARNAVAL de métodos sem resultados satisfatórios.

Foram todo este histórico, ainda temos agravantes, como o pouco natural MÉTODO DAS BOQUINHAS, que traz resultados em formato imediatismo, no qual dá-se ênfase em sons de modo forçado e aproveita-se de professores que se sentem perdidos em relação ao processo de alfabetização. Por ser uma metodologia já pronta, funciona como a maquiagem da alfabetização. Claro que tem resultados, mas na verdade esconde a profundidade da aprendizagem, causando graves falhas de interpretação mais à frente.

2. Formação

Este é o ponto a que se deveria dar atenção. Todo o CARNAVAL  de métodos acontece porque não se trata a formação como deveria ser. Note que os professores em formação são aqueles, frutos do carnaval de metodologias e pouco resultado que foram mencionados anteriormente. Esses professores, que tiveram formação deficitária, em muitos casos, até mais do que se deveria, são bombardeados com uma porção de metodologias e ninguém lhes indica para “fazer assim”.

Quem estudou pedagogia sabe que todas as metodologias têm seu sentido, por piores que sejam, então a cada nova metodologia ensinada, pensamos assim: “Nossa, mas faz todo sentido! Por que não ensinamos assim?” Com o tempo, isso vira uma miscelânea, que não leva a lugar algum. Além de toda esta mistura, focada em metodologias e não em aprendizagem, tem-se ainda o agravante de que pouco se fala de prática na faculdade de pedagogia e prática de alfabetização então, muito longe da realidade. Imagine a quantidade de tempo que os professores de faculdade estão afastados da realidade escolar! Se o professor não vai a campo, dificilmente entenderá o que se passa e não é de teóricos que precisamos em aula. Eis o grande ponto da questão!

A formação de professores deveria ocorrer de maneira mais prática, mostrando em exemplos reais e atividades reais como deve ser a alfabetização. O correto é que aprendam sim como é feita a evolução de aprendizagem do aluno em fase de alfabetização. Imagine um médico. Ele deve conhecer sintomas de várias doenças. O professor, por sua vez, também deve conhecer sintomas, mas não de doenças e sim de fases da escrita e da LEITURA (outra falha nos métodos de alfabetização é o foco em escrita, deixando de lado a leitura). O médico, ao saber os sintomas e examinar os pacientes, sabe o que deve ser feito para que o paciente melhore. O professor deve saber “diagnosticar” a fase de leitura e escrita e usar a melhor estratégia para que o aluno possa avançar. Note que não falei metodologia, pois o que importa não é a metodologia e sim a aprendizagem. Pelo perfil do aluno e por seus “sintomas”, usa-se a estratégia que melhor pode fazê-lo evoluir. O médico não usa maquiagem para tirar a palidez de seus pacientes. Da mesma forma, o professor não deve usar metodologias encaixotadas para mascarar uma falsa alfabetização, pois é isso que transforma as pessoas em analfabetos funcionais, ou seja, pessoas que leem, mas não são capazes, na maior parte das vezes, de interpretar.

3. Falta de interesse do governo

Nosso país é um verdadeiro circo. Não há como negar. Temos um potencial fantástico criativo e ainda assim não avançamos, nossos políticos não são sérios e a população faz graça de sua própria desgraça. Cada vez mais somos menos capazes de fazer as coisas, somos menos levados a sério e temos pessoas mais críticas, porém que têm uma criticidade desnecessária, importando-se com fatores que são de mínima importância, criando caso com o que pouco importa e deixando de lado fatores que seriam imprescindíveis para um país melhor.

Este é o exato retrato de um Brasil que foi meticulosamente moldado pelo governo – e também por instituições privadas, não se engane! O pior de tudo é que isso foi moldado pelos primeiros que deveriam ter percebido e feito algo: os professores. Paulo Freire foi sábio em dizer que “Educar é um ato político”. Não concorda? Vou argumentar neste ponto, para que entenda melhor.

O interesse do governo é ter pessoas que pouco pensam, para poder manipular. O Brasil é considerado, no mundo, uma população extremamente manipulável e se não acredita, comece a ler jornais de outros países (vários, por sinal). Só para começar, vamos retomar o caso das metodologias que expliquei. Até final dos anos 80 o parâmetro eram as sílabas. Introduziu-se algo completamente diferente, chamado sócio construtivismo e por cerca de mais de 20 anos foi usado. Quando finalmente se entende melhor sobre hipóteses de escrita e quase três gerações de pessoas foram alfabetizadas dentro desta metodologia, volta-se à sílaba, dizendo que é diferente – mais é a mesma coisa, com uns retoques de “maquiagem”. Resultado: tudo o que se sabia de alfabetizar foi novamente descartado para causar mesmo falhas na educação.

O mais triste de tudo é que justamente quem deveria perceber isso e fazer a diferença, que é o professor, apenas continua seu trabalho em silêncio, fazendo o que mandam e esta é a pior parte. Sempre lutei contra o que me dizem e sei que é errado fazer, porque me sentiria enganando meus alunos, mas sou apenas uma em meio a milhões. Sei que há outros que também não concordam e devem mostrar que têm consciência. No final, o que importa localmente, no conselho de classe, é o resultado.

O professor não deve se contentar com o resultado mascarado, que é o que o governo pretende. O professor deve ter o orgulho de dizer que realmente alfabetizou e não que mascarou a alfabetização, com uma leitura pobre de significado para os alunos.

Provas de que o governo quer sabotar a alfabetização tive várias em minha carreira. Livretos prontos como o Ler e Escrever, Emai e tantos outros são prova disso. Cursos como o PROFA, o LER E ESCREVER, o próprio PNAIC e tantos outros que tomam o tempo do professor e parecem uma reunião de AA da educação, com lindos textos e poucos resultados, além de serem cópias uns dos outros e utilizar material alheio sem permissão do autor proliferam nas escolas. O pior é que há quem diga que é ótimo e dizer isso é demonstrar pouca criticidade funcional. Quem diz que concorda plenamente com as metodologias falidas à qual os professores são apresentados traz em si o retrato do êxito do governo em criar o país que temos atualmente. Afinal de contas, ensinar é saber usar estratégias e não metodologias. É saber avaliar as necessidades e não usar metodologias que tomam muito tempo e dão poucos resultados.

O governo acha tudo ótimo! Dizer que está dando cursos que preparam o professor para alfabetizar é marketing para ele. Diz ao povo que ele está tentando fazer algo, mas não deveria dizer ao professor isso também. Anteriormente, dizia-se que a escola poderia alfabetizar até o terceiro ano – um disparate! Nosso cérebro, biologicamente falando, está preparado para a alfabetização entre os 5 e 7 anos. No terceiro ano, do ponto de vista biológico, tudo fica muito mais difícil. Mas nada é feito por acaso no Brasil, não se engane. O interesse é que se passe mesmo da fase da alfabetização para que tudo fique mais difícil na aprendizagem e fácil na manipulação.

Janaína é pedagoga e  trabalha há mais de 10 anos na criação de materiais didáticos. 

Última modificação em Segunda, 25 Junho 2018 15:00

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