Segunda, 30 Julho 2018 12:11

Por que o professor é desvalorizado?

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Janaína Spolidorio

A educação no Brasil está longe de ser ideal, ou até mesmo básica, com um pouco de qualidade. Um motivo bastante forte para que isto ocorra é a desvalorização do professor, mas você já refletiu sobre alguns motivos que levam a esta desvalorização?         

Tive muito tempo para pensar e tento, constantemente, que as coisas sejam diferentes, mas é preciso conscientizar outras pessoas sobre tais motivos, para que possamos começar a mudar este panorama. Minha intenção não é desvalorizar o que já existe, pois isso já acontece, mas ninguém conta a todos as razões para esta desvalorização, talvez até porque é possível que alguns profissionais se sintam ofendidos com algumas dessas razões, mas se não falarmos sobre isso e não refletirmos, vamos continuar na mesma e luto diariamente para que seja diferente, para que haja a valorização.          

Se você se enquadra em alguns destes motivos, como expliquei, não se sinta ofendido, porque são baseados em fatos e a boa notícia é que se achar que tem a ver com você, é o momento de refletir e ter a oportunidade de mudar, assim você ajuda também os demais profissionais da área com a valorização!

Veja a seguir alguns dos motivos da desvalorização do professor:
 

  1. Formação deficitária

Como podemos conferir a partir dos vários relatórios que vários órgãos publicam sobre a educação no Brasil, é fato que ela seja deficitária. Desta forma, o professor já sai de uma educação básica e média que não o fez atingir a formação educacional que deveria e parte para uma faculdade ou universidade igual ou até pior em formação.

Os cursos de pedagogia costumam ter até um preço inferior ao de outros cursos na faculdade, o que acaba atraindo ainda profissionais que buscam uma formação universitária, mas não possuem a total vocação que o profissional deveria ter. Não é raro ouvir que alguém está fazendo pedagogia porque “é mais em conta” e “é mais fácil encontrar emprego em qualquer idade”.

Quando um universitário chega ao curso de Pedagogia, tem falsas noções sobre o que irá aprender. Imagina-se que irá ser feita uma revisão dos conteúdos do Ensino Fundamental e da Educação Infantil, para que sejam repassados em prática, futuramente. O que se vê no lugar são teorias e mais teorias, com pouquíssima prática, o que resulta em um distanciamento enorme da formação com a realidade do trabalho, coisa que se percebe no momento do estágio, já provavelmente no último ano do curso.

A culpa desta formação DEFICITÁRIA é de todos. Quando digo todos quero dizer do sistema, que não faz nada para mudar, da cultura do país, que desvaloriza o professor antes mesmo de se formar e dos próprios alunos de magistério, que se veem “enredados” em um ciclo fadado ao fracasso, na maioria das vezes, mas que não conseguem fazer nada para mudar o quadro. O mais engraçado é que a culpa é de TODOS, mas não podemos culpa-los, porque é também parte do que o país, em geral, espera que aconteça e pelo jeito está longe de mudar.  

Se o profissional fica abaixo do esperado, não há porque valorizar seu trabalho e, infelizmente, é uma profissão que deveria estar extremamente bem valorizada desde a faculdade, mas já se impõe, pelo investimento educacional que é feito no curso, que seja desvalorizada. Muitos podem dizer que é um “incentivo” o preço baixo da faculdade ou a facilidade para entrar em cursos públicos neste curso, mas reflita melhor e verá que geralmente os cursos mais valorizados no mercado de trabalho são os que tiveram maior dificuldade de acesso, seja por conhecimento ou preço.

  1. Pouca visão 

Como a educação foi deficitária, grande parte dos profissionais acaba com uma visão parca sobre como ensinar. O mais comum é que comece a ensinar de um jeito, que foi como aprendeu há pelo menos duas décadas, porque na faculdade não lhe ensinaram de modo PRÁTICO o que fazer, e use de certa forma alguma metodologia que aprendeu, adequando ao que sabe sobre o ensinar.

Estamos lidando com uma geração totalmente diferente da que o professor vivenciou quando foi ensinado. Em lugar de enxergar as diferenças, a educação acaba focada num “universo de Alice”. É um mundo paralelo, onde o professor ensina como sabe, que foi como aprendeu, e fica preso a uma metodologia, enquanto deveria ter como foco como o aluno aprende e, com base no que descobriu sobre o aluno, usa a metodologia mais adequada ao seu caso. Não acredita? Basta ver o enorme relatório de alunos com dificuldades de aprendizagem no país.

A falta de VISÃO para ir além do que foi treinado para ser e além do que a sociedade espera que ele faça torna o professor uma categoria considerada por outras profissões como “sem visão”. Ele é respeitado sim, mas não é valorizado, pois acaba havendo, mesmo que inconscientemente, uma descrença em sua função, que cada vez se torna mais evidente nos noticiários do país. Fala-se de educação quase sempre pelo lado negativo, sobre os alunos que evadiram, sobre os alunos que não aprenderam, mas raramente se incentiva a população mostrando mais os professores que são destaque, aqueles que conseguiram ampliar sua visão.

Sim, há muitos profissionais que fazem a diferença, mas parecem ser abafados em meio a tantos que se tornaram limitados. Como valorizar alguém que não traz resultados? Estima-se que levaríamos mais de 200 anos para termos uma alfabetização minimamente adequada no país para os dias de hoje. Como valorizar resultados assim?

  1.  O "cantinho" da "titia"

Desde muito cedo, os profissionais da área de educação depreciam sua própria imagem, embora seja inconsciente.

Quando eu ainda me formava na área, nosso diretor dizia algo que, ao longo dos anos, percebi ser verdadeiro. Ele nos dizia que quando nos formássemos, deveríamos buscar mais da educação. Nada de montar escolas com nomes como “Pimpolho Alegre” ou “Grilo Cantante”. Não me leve a mal! Não estou culpando ninguém por ter a escola com nomes assim, afinal de contas, como já falei no início do artigo, grande parte da culpa da área educacional ser assim vem da própria cultura.

Muitos professores gostam demais das crianças menores e isso é ótimo! Para chamar a atenção, usam recursos como a infantilização da fala, se chama de “titia” e até chega a criar blog na internet do “cantinho da titia”.

Pense bem... a infantilização da fala está ok para falar com as crianças pequenas, mas o que a sociedade pensa sobre a educação quando passa na frente da “Escolinha Pimpolho Alegre”? O perigo está exatamente nisso, o que se pensa, pois é daí que vem a desvalorização. Pensando sem essa postura infantilizada, você valorizaria uma “escolinha” com nomes deste tipo? Qual seriedade em relação à educação de seu filho a escola lhe passa? E imagine que a escola seja até boa e comece a crescer. Será que se chamando “Pimpolho Alegre” iria ser adequado para crianças maiores? É aí que os donos destas escolas entendem que, desde o princípio, o nome deveria ter sido outro, algo que fortalecesse mais a ideia da educação e transmitisse maior seriedade.

Sobre o “titia” então, inquestionável. Imagine só um médico pediatra falar para seu paciente chamar ele de “titio”. Não dá, certo? Não dá porque ele sabe que foi difícil passar na faculdade, porque seu curso é valorizado e ele precisa perpetuar essa valorização. Não dá porque ele passou anos na faculdade, estudando conteúdos dificílimos e depois mais anos na residência, só para aprender a prática de vez e isso precisa ser valorizado. O “titio” não tem nada a ver com ele e o que ele passou para se tornar um médico pediatra. Até mesmo os pais da criança sabem disso e o respeitam de uma forma realmente respeitável, o valorizam.

Temos que dar maior valor ao “ar” da profissão. A educação é algo muito sério e não digo que não deva haver diversão dentro da escola, pois ela é necessária ao aprendizado, mas este ar divertido não deveria ser marca dos professores frente a outras pessoas. Isso porque desvaloriza a imagem do professor. Imagine a visão da sociedade, em geral, frente a essas minimizações do trabalho do professor. Você acha que a “titia” deveria ganhar mais? Não estou dizendo que faça mal seu trabalho, estou pedindo que reflita sobre o rótulo que os próprios profissionais da área se colocam e até qual ponto é válido que o façam.

  1. Professor que é obrigado a ser mais que professor.

Também culpa da nossa cultura. Note que o professor deve se preocupar com a educação formativa dos alunos. Para fazer isso, seu foco deve ser o aluno.

Culturalmente, contudo, quando colocamos o pé dentro da sala de aula, descobrimos que nos tornamos uma porção de outras profissões. Professor é enfermeiro quando o aluno demonstra febre ou se machuca, professor é psicólogo, pois tem que lidar com problemas tanto dos alunos quanto das famílias, professor é autor, porque a escola o obriga a montar atividades e é tantas outras coisas, que não caberiam neste artigo falar sobre todas.

Se o professor se dedicasse somente ao que deveria, que é o ensino do aluno, garanto que a educação no país seria diferente.

Professor não tem que pensar em elaborar atividades, por exemplo. Ele deve ter atividades variadas, de metodologias variadas, feitas por profissionais que estudaram para ser autores didáticos, para poder aplicar nos alunos, depois de identificar dificuldades de aprendizagem do aluno. Em lugar disso, além de fazer UMA atividade para a classe, porque note que o tempo dele dará só para fazer esta, ele ainda tem que organizar, corrigir e lançar notas das atividades para “constar” nos relatórios. Seja sincero... acha que isso dá certo? Pois é, não dá, porque é uma função a mais. Daí, porque ele teve dificuldade em procurar uma atividade pronta na internet ou fazer uma, acaba compartilhando no “blog do cantinho da titia”, prejudicando outra profissão, a do autor didático. Péssimo exemplo... se pegou de alguém, não tem direito de replicar, se fez, deve valorizar seu trabalho. E tudo isso, porque ele foi obrigado a ser mais do que um professor, teve que ser um autor. Como valorizar um profissional que não valoriza outro?

Percebe como é uma bola de neve? Dei o exemplo do autor didático, porque é o mais próximo a mim, mas poderia dar vários outros exemplos. Claro que é uma questão cultural, pois muito se exige do professor fora de se trabalho, mas temos que nos dar conta disso e encontrar formas de usarmos o próprio trabalho para justificar nossa valorização.

  1. Falta de incentivo

Salários baixos, desvalorização... claro que o professor não é incentivado e isso cria um movimento geral de descontentamento na classe.            

É comum vermos grandes empresas incentivarem os influenciadores digitais que fazem o maior sucesso entre os jovens. Pergunto a você: quem são esses jovens? Pois é... são os mesmos que deveriam ser influenciados pelos professores, mas os professores não falam besteiras, não fazem gracinhas, não ensinam o que não se deve e fica difícil, assim, em nosso país, se tornar um influenciador.            

Estando fora do rol de “qualidades” de um influenciador, é preciso trabalhar dia e noite para ter um mínimo de influência e sem patrocínio, sem incentivo, sem investimento de grandes empresas.            

Não somos incentivados na faculdade, porque temos um tipo de formação deficitária, que já vem de muito antes de decidirmos pela área da educação.             

Não somos incentivados a pensar além daquilo que fomos treinados para fazer e muitas escolas também contribuem para que continue assim.               

Não somos incentivados a valorizar nossos próprios títulos e escolas, acabamos dando às escolas nomes infantilizados, que promovem maior desvalorização frente à sociedade e ainda há muitos que, sem perceber, se intitulam de modo desvalorizado, sem dar os créditos ecessários à sua formação.              

Não somos incentivados a nos dedicar integralmente ao que deveríamos, que é a formação escolar dos alunos. Em lugar disso, temos que nos voltar a outras questões, inclusive burocráticas e desnecessárias.                

Não somos incentivados a influenciar a população, pois como alguém tão desvalorizado poderia fazê-lo?

 

Estes são somente alguns dos motivos da valorização do professor. Há outros, mais profundos e complexos, que não inclui no artigo, mas importante que as pessoas reflitam sobre estas questões e passem a mudar o modo como veem o professor. Só com a reflexão e a mudança poderemos dar um melhor rumo ao futuro daqueles que se preocupam com a formação do país e devem ser valorizados por todos.

Janaína é pedagoga, empresária, blogueira profissional, designer de atividades pedagógicas e mídia social. Especialista em Educação Personalizada.

Última modificação em Segunda, 30 Julho 2018 17:53

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