Sexta, 07 Janeiro 2022 11:15

Ter futuro

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Claudia Costin



Pesquisa recente da consultoria IDados mostra que o Brasil conta com 12,3 milhões de jovens entre 18 e 29 anos que nem estudam nem trabalham, um número que aumentou depois do advento da Covid-19 em 2020. Mesmo com a reabertura das escolas e a busca ativa dos alunos que não voltaram às aulas, ou ainda, no mesmo sentido, com a incipiente recuperação econômica, o número dos chamados "nem-nem" se mantém superior ao do primeiro semestre de 2019.

Alguns motivos para essa situação estão estreitamente ligados à pandemia. Se não há oferta de aprendizagem remota na educação básica, como ocorreu em 18% dos municípios e ainda em várias universidades pelo país, a tendência entre os jovens é a de perder o vínculo e se desengajar dos estudos. Além disso, se o discurso de autoridades públicas é o de que universidade são para poucos - e diante da ausência de conectividade, livros ou equipamentos, por que se empenhar para prosseguir estudando? Outro elemento importante foi a crise econômica associada à Covid, que explica a elevada evasão no ensino superior privado e que tornou necessário o trabalho precarizado de muitos jovens.

Mas, dirão alguns, com a plena retomada das atividades produtivas, os que estão excluídos das escolas e dos postos de trabalho logo estarão de volta. Sim, a expectativa é que assim seja, mas há uma mudança no mundo do trabalho que precisa ser levada em conta para construir um futuro mais  sustentável e inclusivo.

Com o advento da inteligência artificial e de uma automação acelerada, entre outras transformações na economia, contar apenas com ensino médio, como bem mostra Michele Weise em seu interessante livro de 2021 "Long Life Learning" (longa vida de aprendizado, em tradução livre), não será suficiente para oferecer aos jovens trabalhos dignos.

Com a rápida substituição de gente por máquinas, mesmo que novos postos laborais sejam criados, eles demandarão outras competências, o que obrigará novas gerações de profissionais não apenas a concluir uma educação pós secundária como a constantemente se recapacitar. Afnal, os postos de trabalho serão extintos e criados em ondas sucessivas, não de uma vez só. E não me refiro aqui só a atualizações dentro da mesma profissão, mas eventualmente a "reinvenções" profissionais.

Nesse sentido, precisamos nos assegurar de que os jovens continuem estudando - e não apenas até o final do ensino médio. Além disso, será necessário que a qualidade da formação oferecida os conecte novamente com a aprendizagem e lhes ensine a navegar num mundo ainda incerto e imprevisível. Afinal, o Brasil só será melhor se eles tiverem direito a um futuro!

Claudia Costin, Diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da FGV. Escreve às sextas-feiras na Folha de São Paulo.

Última modificação em Sexta, 07 Janeiro 2022 11:35

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