Sexta, 26 Junho 2020 10:18

Educação em quarentena

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Educação em quarentena


As medidas de isolamento social reacenderam a discussão a favor das propostas de educação em outros espaços fora da escola. Com os estudantes em casa estava posto o cenário propício à regulamentação do ensino domiciliar e/ou da educação à distância defendida por alguns movimentos, empresários e políticos.


Cenário 1 - O homeschooling


A proposta de homeschooling (educação no lar, ensino doméstico ou educação domiciliar) teve origem durante um movimento a favor de uma reforma educacional proposta por John Holt, professor e escritor norte-americano, na década de setenta.


No Brasil, a proposta defendida por poucos, foi retomada em abril deste ano, em razão de uma emenda apresentada pela deputada federal Professora Dorinha Seabra Rezende (DEM), com o objetivo de regulamentar a educação domiciliar. O projeto permitia os sistemas de ensino contratarem pais, mães e tutores para educar crianças e jovens, em casa. Ao órgão de ensino (Ministério da Educação, secretarias de educação dos estados e municípios), caberia o acompanhamento dos estudantes nessa situação por meio de “inspeções periódicas” e avaliações.


Estava posto a volta do debate/defesa dessa modalidade de ensino.


Cenário 2 - Educação a distância (EaD)


Desde a década de 20, a EaD chegou no rádio e, mais tarde,n a televisão. Nessa época os estudantes recebiam o material didático por correio e tinham acesso às aulas por meio daquelas mídias. A partir daí, a EaD não parou de crescer.


Recentemente, por meio do decreto 9.057/2017, Michel Temer autorizou a oferta de cursos a distância para os anos finais do Ensino Fundamental (do 6º ao 9º ano). A proposta tinha como objetivo chegar aos estudantes privados da oferta de disciplinas obrigatórias do currículo escolar. Diante das inúmeras críticas, o governo recuou, alegando ‘erro material’ na redação do texto e manteve a autorização do uso de EaD para o Ensino Fundamental somente em casos emergenciais.


Em 2018, 0 Ministério da Educação (MEC) aprovou a resolução que atualiza as Diretrizes Nacionais Curriculares (DCNs) do Ensino Médio. Entre as mudanças está a aprovação de 20% da carga horária do Ensino Médio em Educação a Distância (EaD), podendo chegar a 30% no Ensino Médio noturno e 80% na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Mais recentemente, em razão do isolamento social, muitos governos e corporações ligadas à venda de ferramentas digitais e materiais didático voltaram a flertar com a EaD na Educação Básica.


Os cenários se encontram

No Perigo


. do fortalecimento da proposta de substituição da alfabetização e do letramento digital presencial, conforme preconiza a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), pelo homeschooling e/ou educação a distância;

. da diminuição do tempo na escola em favor da educação em casa;

. da resolução do déficit de professores e professoras por meio de aulas na modalidade a distância, bem como sua desvalorização ao admitir que pais, mães ou tutores possam substituí-los;

. da diminuição ou finalização dos serviços prestados pelas escolas que incluem a proteção das crianças e a articulação do atendimento com as áreas de saúde e assistência social. Muitos estudantes estão em situação de vulnerabilidade, têm alguma deficiência, sofrem algum tipo de violência doméstica, estão em situação em extrema pobreza e/ou são submetidos ao trabalho infantil;

. do afastamento dos estudantes e das famílias da escola, reduzindo ainda mais o poder de controle social que exercem sobre o equipamento público, condição para a melhoria da qualidade da educação.


Nos Problemas 


como o isolamento social mostrou, muitas famílias têm dificuldade para conciliar o trabalho formal e as tarefas domésticas com as atividades escolares que mantenham os estudantes na rotina de estudos;

os estudantes têm dificuldade para cumprir as tarefas diárias, sendo que isso é impossível para muitos pois não possuem celular, tablets ou computadores, espaço para estudar, internet, etc. Por outro lado, muitos possuem as ferramentas digitais com memória limitada, impossibilitando o acesso aos aplicativos necessários para o acompanhamento das aulas;

muitos profissionais da educação não têm familiaridade com a linguagem e uso dos meios digitais. Outro problema, no caso do teletrabalho, é o volume de conteúdo imposto pelo governo;

a permissão do ensino domiciliar e/ou a distância implicaria aumento das desigualdades sociais já existentes. Os filhos e filhas das classes mais abastadas frequentam escolas privadas de elite e, em geral, ingressam em instituições públicas de educação superior. Os filhos da classe média e pobre cursam a educação básica na escola pública e, quando concluem o ensino médio, se ingressam na educação superior, vão para instituições privadas.


Os cenários ratificam a importância do chão da escola

A maioria dos pesquisadores e dos profissionais da educação sempre discutiram a fragilidade do homeschooling porque priva a convivência e da educação a distância porque nem todos os aspectos da aprendizagem podem ser transmitidos por uma tela. Vejamos mais alguns argumentos:


. aprender em grupo favorece a interação, a colaboração, diferente da aprendizagem individual. Aprender é um processo interativo. Na escola, os estudantes convivem em um novo universo de códigos e valores mais amplo do que aquele conhecido por meio da família, o que favorece as aprendizagens emocionais, sociais, cognitivas;

. na escola existe um espaço fértil para que o processo de ensino e de aprendizagem floresça e se fortaleça. Na instituição estão reunidas pessoas com experiências e formação diferentes, com vivências em realidades diversas. Essas condições favorecem a construção coletiva de saberes, o aprender a lidar com pensamentos divergentes, o contato com diferentes culturas, valores e religiões;

. na escola, profissionais da educação, estudantes e famílias exercitam a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação. O convívio no ambiente escolar propicia a aprendizagem do que existe por trás das letras;

. na escola todos aprendem, inclusive a família, porque é um espaço de encontros e aprendizagens;

. para professores e professoras, a escola é um espaço rico porque possibilita a socialização e exige trabalho cooperativo. A simples convivência presencial e suas trocas diárias estabelecem relações cooperativas que podem ser ampliadas por meio de reuniões para compartilhar dificuldades e experiências.


Os cenários sugerem pautas de lutas


. preservação dos empregos e salários de todos os profissionais da educação enquanto durar o estado de emergência de saúde pública (Lei nº 13.979/2020);

. o comprometimento da União com o financiamento adequado para o cumprimento das metas e estratégias do Planos de Educação;

. o fim do teto de gastos - Emenda Constitucional 95/16 - que restringiu o financiamento das áreas sociais por 20 anos. Devido ao efeito da Emenda, só entre 2017 e 2018, o orçamento federal para a educação foi reduzido em 32%, caindo de R$6,6 para R$4,52 bilhões;

. a renovação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), incorporado ao texto da Constituição Federal, com maior complementação da União;

. abertura do diálogo permanente entre o governo e os representantes da categoria, mesmo que de forma remota;

. implantação de um programa de assistência em saúde mental aos profissionais da educação, estudantes e famílias, durante e depois da pandemia.


Maria Cláudia V. Junqueira, coordenadora do Encontro de Professores Representantes de Escola

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2 comentários

  • Link do comentário Paula Hanmer Sábado, 27 Junho 2020 12:45 postado por Paula Hanmer

    Nada como o Chão Da Escola, e o professor presente com sua longa formação.

  • Link do comentário M renata de a vianna Sábado, 27 Junho 2020 11:02 postado por M renata de a vianna

    Para mim é muito bom ler esse tipo de conteúdo porque me atualiza. Não sou profissional da area de educação, mas valorizo muito e gostaria qye fosse encaminhada de modo a favorecer os professores e estudantes.
    Que venha mais matérias como essa.
    Renata

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