Atualizado em 26 maio, 2026 às 17:20

Um Estado que negocia direitos como se fossem favores corrói sua credibilidade

Foto: Envato

Você sabe o que é um precatório? Trata-se de uma dívida que o Estado é obrigado a pagar após perder uma ação na Justiça em caráter definitivo, sem possibilidade de recurso. Nesse momento, o direito do cidadão é oficialmente reconhecido. Em geral, envolve servidores públicos, aposentados ou pessoas que venceram processos contra o poder público. Após a decisão final, o credor entra em uma fila para receber, mas o pagamento costuma demorar anos, às vezes décadas. Ainda assim, não se trata de favor, e sim do cumprimento de uma obrigação legal.

Em São Paulo, sob o governo de Tarcísio de Freitas, esse direito vem sendo submetido a uma lógica que afronta o senso de justiça. A política atual impõe aos credores um dilema perverso: aceitar receber cerca de 60% do valor devido ou permanecer indefinidamente na fila.

Em outras palavras, o Estado condiciona o cumprimento de uma decisão judicial à renúncia de quase metade do direito conquistado, prática que mais se aproxima da agiotagem do que de uma gestão pública responsável.

A situação se agrava porque o deságio passou a ser linear, de 40%, sem considerar o tempo de espera. Antes, ao menos, havia alguma diferenciação para quem aguardava há mais tempo. Hoje, nivelam-se injustiças. E nem mesmo quem aceita perder parte do valor tem garantia de receber rapidamente. O pagamento continua sujeito ao orçamento e pode demorar ainda mais. Ou seja: perde-se no valor e no tempo.

Professores, servidores e aposentados estão entre os mais atingidos. São pessoas que aguardam há anos por um direito que lhes foi negado no passado e que, agora, volta a ser subtraído sob nova forma. É uma violência institucional que atinge o bolso e, sobretudo, a dignidade. Pois o argumento do equilíbrio fiscal não pode servir de justificativa para o descumprimento de obrigações judiciais. Quando o Estado, por decreto, altera as condições de pagamento de precatórios, rompe-se um dos pilares da confiança pública: a certeza de que a lei será cumprida, inclusive por quem governa.

A realidade atual, de maneira inquietante, evoca a célebre passagem de O Mercador de Veneza, de Shakespeare. Nela, o agiota Shylock recusa o pagamento em dobro da dívida e exige algo mais cruel: uma libra da carne do devedor, Antonio. Uma atitude de ave de rapina. Não lhe interessa o pagamento, mas a punição; não basta pagar, é preciso impor perda e humilhação. Eis o que faz a atual gestão do governo paulista.

Criou-se, inclusive, um mercado paralelo de compra de precatórios, no qual escritórios oferecem valores ainda menores, transformando direitos em ativos financeiros depreciados. A espera virou moeda; a necessidade se converteu em oportunidade para poucos.

Mais grave é constatar que ainda haja lesados que sustentam politicamente seu algoz. São capazes de votar naquele que os prejudicam. E, nesse contexto, não se trata de divergência ideológica, mas de um impacto concreto sobre vidas reais.

Quando a maldade se impõe sobre a inocência, como na advertência shakespeariana, o que está em jogo é o próprio sentido de justiça. Um Estado que negocia direitos como se fossem favores corrói sua credibilidade. Demonstra de maneira cabal um profundo desrespeito pelos cidadãos.

*Azuaite Martins de França é professor e 1º Vice Presidente do CPP.