A volta às aulas deve ser também um momento de reflexão sobre as condições oferecidas aos educadores

Foto: Thiago Tasso


O início de um novo semestre letivo costuma ser acompanhado por expectativas, planejamento e pela esperança de novos aprendizados.
Para os professores, porém, a volta às aulas também representa o retorno a uma rotina intensa, marcada por desafios que vão muito além do ensino.

Após mais de seis décadas dedicadas ao magistério, acompanhei diferentes momentos da educação brasileira.
Nunca, entretanto, vi o professor acumular tantas responsabilidades quanto agora. Hoje, além de ensinar, ele precisa administrar plataformas digitais, preencher sistemas, lidar com demandas burocráticas, mediar conflitos, acolher estudantes emocionalmente fragilizados e responder, muitas vezes, por problemas que extrapolam os limites da escola.

É natural que, nesse retorno às salas de aula, muitos docentes sintam preocupação antes mesmo do primeiro dia de trabalho. Não por falta de vocação, mas porque sabem que encontrarão uma jornada cada vez mais exigente e, muitas vezes, sem a estrutura necessária para desempenhá-la.

Os números ajudam a explicar esse cenário. Levantamento do Centro do Professorado Paulista (CPP) mostra que mais de 142 mil professores da rede estadual cumprem jornadas de 40 horas semanais, enquanto outros 54 mil docentes ainda precisam dividir sua carga horária entre diferentes escolas para garantir uma renda adequada. Essa realidade torna a rotina mais desgastante e reduz o tempo disponível para planejamento, formação e descanso.

Ao mesmo tempo, novas exigências seguem sendo incorporadas ao cotidiano escolar. A tecnologia e a inteligência artificial são ferramentas importantes e podem enriquecer o processo de ensino, mas sua implementação precisa ser acompanhada de formação continuada, suporte técnico e tempo para adaptação. Não é razoável transformar cada inovação em mais uma responsabilidade exclusiva do professor.

Outro dado merece atenção. Apenas 12% dos docentes da rede estadual têm até 30 anos, enquanto 32% já ultrapassaram os 50 anos. O envelhecimento da categoria revela uma dificuldade crescente de atrair novos profissionais para a carreira, reflexo de uma profissão que convive diariamente com sobrecarga, insegurança e pouca valorização.

Por isso, a volta às aulas deve ser também um momento de reflexão sobre as condições oferecidas aos educadores. Esperamos que os professores recebam seus alunos motivados, preparados e confiantes. Mas é preciso perguntar: quem está cuidando desses profissionais para que possam exercer sua missão da melhor forma?

Valorizar o professor vai muito além da remuneração, embora ela seja indispensável. Significa garantir condições adequadas de trabalho, respeitar os limites da jornada, investir em saúde mental, reduzir a burocracia e criar um ambiente escolar seguro, em que ensinar volte a ser a principal preocupação do educador.

A sociedade deposita na escola a responsabilidade de formar cidadãos, reduzir desigualdades e preparar as novas gerações para um mundo em constante transformação. São objetivos fundamentais, mas que somente poderão ser alcançados se houver professores valorizados, respeitados e amparados.

Neste retorno às aulas, o desejo é que alunos reencontrem seus mestres com entusiasmo. Mas é igualmente importante que o poder público e toda a sociedade compreendam que cuidar da educação começa por cuidar de quem dedica a vida a ensinar. Afinal, não existe ensino de qualidade sem professores que tenham condições de exercer plenamente sua profissão.

*Silvio dos Santos Martins é presidente do Centro do Professorado Paulista