29 presenças

 

29 futuros

 

29 urros de dor

29 crianças e adolescentes hoje acordaram para o último dia

 

29 crianças e adolescentes hoje andaram por ruas em contrações

 

29 crianças e adolescentes hoje viram armas rasgarem o ar dos pulmões

 

29 crianças e adolescentes hoje vão parar estupefatos diante da morte crua

 

29 crianças e adolescentes que nasceram no meio de uma luta nua que não era delas

 

29 crianças e adolescentes vão se perguntar, um sopro antes da despedida: por que eu? por que tão cedo? por que bruto? por que medo? por que covardia? por que carência? por que violência em vez de paciência?

 

29 famílias ou 29 comovidos vão se cobrir com lenços para em seguida dormir pesadelos

 

29 primeiras lágrimas de susto vão escorrer e molhar os chãos já úmidos de vermelho

 

29 notícias vão se espalhar por muitos 29 ouvidos

 

29 notícias vão entrar pelos ouvidos e cair direto na portaria das mentes, causar tristeza, surpresa, dor indiferente

 

29 notícias da barbárie vão sair da portaria das mentes em minutos e cair no vão dos (esfare)lamentos

 

29 sustos vão virar ventos

 

29 crianças e adolescentes são assassinados hoje e hoje mesmo habitam o vão escuro que seca o som dos seus urros, para que os próximos 29 venham, e também os apaguemos da história com borracha de bala, para que caibam os próximos a serem deslembrados, desmembrados, como numa dança macabra de cadeiras que são vidas que fogem expulsas

 

29 histórias que não merecem, depois de tanto desamor e descaso, receber um olhar profundamente raso

* André Gravatá  é articulista