
Deputado chamou funcionários públicos de vagabundos, e parlamentares se agrediram; episódio aconteceu na noite desta quarta-feira (4) em sessão plenária sobre a Previdência
O Parlamento Paulista teve cenas dignas de filme de terror na noite desta quarta-feira (4). Em sessão plenária sobre a reforma da Previdência do governador João Doria (PSDB), o deputado Arthur do Val (sem partido atualmente porque foi expulso do DEM) xingou de vagabundos servidores públicos que acompanhavam as discussões na galeria. Depois que o presidente da Assembleia Legislativa, Cauê Macris (PSDB), interveio algumas vezes, sem conseguir acabar com as ofensas, deputados do PT subiram à tribuna. A confusão foi generalizada, com empurrões, bate-boca e até mordida.
A balbúrdia começou antes mesmo de Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, chegar ao púlpito. Enquanto outros deputados discursavam, ele pediu a palavra ao presidente da sessão e, no microfone, provocou os servidores da galeria. “Estou inscrito e sou o próximo a falar. Eu quero ver se vocês vão ter estômago para ouvir umas verdades”, disse. O público reagiu com vaias, o que ampliou o tom provocativo do parlamentar. Arthur foi até o vidro que separa a galeria do plenário e fez gestos com as mãos para os presentes, dando a entender chamamento para briga.
Deputados pediram a ele que cessasse com as provocações, o que não surtiu efeito. Quando chegou à tribuna, Arthur ofendeu de forma generalizada o funcionalismo público. “A mamata de vocês vai acabar. Vamos privatizar tudo, seu bando de vagabundos”, disparou. De costas para a tribuna, servidores revidaram com vaias, gritos, apitaço e algumas ofensas, levando o deputado a subir o tom e repetir “vagabundos” várias vezes.
Presidente da Alesp, Cauê Macris repreendeu a falta de postura do parlamentar e pediu para que a palavra “vagabundo”, que considerou de baixo calão, fosse retirada das notas taquigráficas. “Não é correto utilizar essa expressão com ninguém, nem com a população que está aqui. Solicito que não a utilize.” O tucano, contudo, foi criticado por demorar para agir. A deputada Márcia Lia (PT) havia pedido diversas vezes para que o microfone de Arthur fosse cortado.
Depois da intervenção de Macris, Arthur mudou o foco e, em vez de ofender servidores públicos, voltou os xingamentos a sindicalistas e petistas, aos quais se referiu como boiada. “O PT está dando mortadela para vocês virarem de costas. Onde vocês estavam quando o partido de vocês votou com o PSDB para a presidência desta Casa? Onde vocês estavam quando o deputado Barba votou a favor do projeto do Doria que dá dinheiro de vocês para o Caoa? Cadê o Sindicato dos Metalúrgicos?”
Na sequência, ele afirmou que acabaria com a vagabundagem de sindicato mandar e desmandar no estado. “Acabou a palhaçada de nego mamando no dinheiro do imposto do seu José e da dona Maria”, gritou, pedindo para que líderes sindicais presentes levantassem a mão. “Eu quero pegar vocês que tomam o dinheiro dos trabalhadores, bando de vagabundo.”
A agressão verbal foi o estopim para a agressão física. O deputado Teonilio Barba (PT) subiu à tribuna, segundo ele apenas para retirar Arthur do espaço, e simpatizantes de ambos foram atrás. A pancadaria foi generalizada. Houve xingamento, puxada de roupa, tapas, tentativa de soco e gritaria. O deputado Heni Ozi Cukier (Novo) levou uma mordida do deputado Luiz Fernando (PT).
A sessão plenária e a transmissão ao vivo da TV Alesp foram suspensas imediatamente, mas a confusão continuou. Arthur fez gestos obscenos para a galeria e saiu do plenário rodeado por apoiadores e policiais. Alguns presentes xingaram o deputado, sugeriram morte e o chamaram de “menino mimado”.
O presidente Cauê Macris postou em sua conta no Twitter que as cenas registradas não condizem com a história da Alesp. “O momento exige serenidade e responsabilidade, sem radicalização. O caso passará agora a ser analisado com total isenção pelo Conselho de Ética da Casa, que é o local adequado para apuração.”
Nova sessão sobre a Previdência está prevista para hoje (5), com possibilidade pequena de votação. A probabilidade, de acordo com especulações de parlamentares, é que o projeto seja pautado na segunda-feira (9).
NOTA DE REPÚDIO
O CPP reprova a postura do deputado Arthur do Val, atualmente sem partido, que xingou funcionários públicos de vagabundos nesta quarta-feira, em sessão plenária sobre a reforma da Previdência.
Os servidores, incluindo os professores, respondem por serviços públicos prestados à população; além disso, historicamente, sofrem com baixos salários, ausência de reajuste e outros problemas causados pelo descaso do poder público.
A reforma da Previdência é prejudicial aos funcionários públicos em diversos pontos. A tramitação em regime de urgência, sob viés autoritário, tem impedido que a classe debata o assunto de forma ampla, como pressupõe a democracia.
Inadmissível, portanto, que o parlamento registre mais um episódio desrespeitoso ao funcionalismo.
