
Em números absolutos, Brasil está atrás apenas dos EUA em óbitos pela doença
Após dez meses desde o registro da primeira vítima por aqui, em 16 de março, o Brasil contabiliza mais de 200 mil mortes pela Covid-19 nesta sexta-feira (8). A nação verde-amarela é a segunda do mundo com mais óbitos em números absolutos, atrás apenas dos Estados Unidos.
Negaciocionismo, pouco-caso, incompetência, crimes contra a saúde da população e violações de tratados internacionais colocaram o Brasil em uma situação tão delicada quanto vexaminosa. Esses são apenas alguns dos erros apontados – por ação ou omissão – que pesam contra o governo brasileiro. Isso de acordo com a opinião de quem desde o início vive, estuda e tenta minimizar os efeitos da pandemia.
“Após o período de gestação dessa pandemia, parimos um rebento com muitos e diferentes defeitos congênitos. Alguns indeléveis”, diz a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo, uma das profissionais de saúde mais atuantes na pandemia.
Às 22h30 da véspera do dia em que o Brasil chegaria à nova marca recorde, logo após terminar mais um laudo de uma vítima da Covid-19, pouca coisa ainda parecia fazer sentido para ela. “Ninguém se recupera de 200 mil mortes”. A percepção dos familiares das vítimas não é muito diferente. “Negar, colocar empecilhos para o tratamento, falar que o sujeito ‘vira jacaré’ [se tomar a vacina], isso tudo é desinformar a população”, diz Tiago, eleitor de Bolsonaro no segundo turno.
COMBATE POUCO EFETIVO
À medida que a pandemia crescia no Brasil, ficava evidente a falta de coordenação entre o governo federal e os estados. Medidas de fechamento do comércio e divisas circulavam nas diferentes regiões do país sem que uma orientação ou norma da União pudesse esclarecer a viabilidade dessas ações. Estados e municípios passaram a agir por conta própria.
“Até hoje não temos um plano decente, mesmo esse entregue ao STF [Supremo Tribunal Federal) é incompleto”, diz Fernando Aith, advogado, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e diretor do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa/USP).
Lockdowns, confisco de respiradores, falta de insumos para a intubação de pacientes, e agora escassez de seringas e agulhas, são alguns exemplos da confusão causada pela falta de coordenação e erros do governo federal. “O que está acontecendo agora? Prefeitos e governadores estão indo direto ao Butantan para ter acesso à vacina para suas populações”, diz Deisy Ventura, professora de ética da Faculdade de Saúde Pública da USP e pesquisadora do Cepedisa.
PANDEMIA EM ALTA
O Brasil levou cerca de cinco meses para passar de 100 mil mortes para 200 mil mortes causadas pela Covid-19, mesmo intervalo que transcorreu entre os óbitos iniciais e as primeiras 100 mil vítimas brasileiras da doença. Apesar dessa aparente simetria, há indícios de que os dois momentos ocorrem em contextos opostos.
“Com 100 mil óbitos, a gente estava no começo da queda de mortes. Houve um longo platô [estabilização] e depois essa diminuição da gravidade da pandemia, uma flexibilização e a sensação errônea de que a coisa estava no final, de que estava melhorando”, diz o cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede Análise Covid-19.
“Com 200 mil, vemos uma ascensão da doença. Considerando que a notificação está bem atrasada, por causa da sobrecarga dos hospitais das festas de fim de ano, infelizmente teremos um estouro”, afirma. Em parte, o país pode ter caído nessa armadilha por causa de aspectos contraintuitivos da dinâmica da doença; por outro lado, a falta de coordenação em nível nacional também deve ter contribuído para o problema.
Ambos os pontos podem ser ilustrados pela comparação entre o Brasil e a Europa, destaca Schrarstzhaput. Lá, após o controle inicial da transmissão com os lockdowns do primeiro semestre, a reversão de tendência – ou seja, o momento em que o número de casos diários voltou a crescer – se deu já no começo de julho.
No entanto, como existe um atraso considerável entre esse momento de virada e o crescimento descontrolado de novos casos, mais internações e óbitos, a Europa só colocou em prática ações seriamente restritivas a partir do fim de outubro. Não há razão para acreditar que o processo não esteja se repetindo no Brasil. A grande diferença entre a Europa e o Brasil, no entanto, é a falta de coordenação entre regiões. “Por lá, ou abria tudo ou fechava tudo, com diferenças pequenas, na escola de uma semana, entre os países”, explica o pesquisador.
No que diz respeito à própria doença, a mudança recente mais preocupante é o surgimento de novas variantes do vírus com potencial aparentemente maior de infecção, como a B117, já identificada no Brasil e se espalhando velozmente em território europeu. “Durante algum tempo nós tivemos uma circulação de linhagens genéticas do vírus muito similares entre si e relativamente conservadas [com poucas mutações]”, explica o virologista Fernando Spilki, coordenador da Rede Coronaômica, do Ministério da Ciência e Tecnologia, que tem como objetivo mapear a variabilidade genética do vírus no Brasil.
CPP SE SOLIDARIZA COM FAMÍLIAS ENLUTADAS
O Centro do Professorado Paulista se solidariza com todos que perderam pessoas queridas para essa doença terrível. As 200 mil vidas perdidas não representam só um número trágico. São histórias e sonhos interrompidos, são professores, mães, avós, pais, filhos, amigos que deixam um vazio imenso para as pessoas próximas. A entidade expressa profundos sentimentos e pede consciência para os cuidados que evitam a disseminação do vírus.
Embora repetitivo, é sempre necessário reforçar a importância do uso de máscara, álcool gel, lavagem das mãos e distanciamento social.
UM FIO DE ESPERANÇA
Na semana em que o Brasil alcança a triste marca de 200 mil mortos por Covid-19, o anúncio da confirmação da eficácia da vacina do Instituto Butantã e de que o governo finalmente comprará doses da vacina Coronavac, com previsão de iniciar a vacinação em fevereiro, é um alívio (ainda que tardio). Com as vacinas, o momento é de esperança no combate à Covid-19. Não dá mais para esperar. Vacinação já!
Informações da Folha de São Paulo e do Estadão
