Entre os tantos hinos que tocarão Brasil afora nessa data escolhida para aplaudir e reverenciar os milhões de profissionais da educação, “Anjos da Guarda”, assinada e interpretada por Leci Brandão, tem mensagem forte: Na sala de aula é que se forma um cidadão. Na sala de aula é que se muda uma nação. Na sala de aula não há idade nem cor. Por isso, aceite e respeite o meu professor. // Batam palmas pra eles, batam palmas pra eles, batam palmas pra eles, que eles merecem.”

Respeitar professores e professoras, como pede a canção, passa por difundir as histórias que inspiram alunos e novos docentes para o ofício que coloca o conhecimento em movimento.

Algumas delas estão apresentadas aqui, neste 15 de outubro. Conheça, a seguir, um pouco sobre a experiência e o que pensam estas seis professoras:

Antonieta de Barros, de Santa Catarina
Marlina de Oliveira, também de Santa Catarina
Maria Adelaide, do Paraná
Iracilde Costa Nobre, do Maranhão
Luana Tolentino, de Minas Gerais
Catalina Ávila, do Chile

Antonieta de Barros e Marlina de Oliveira

A professora Antonieta de Barros, primeira deputada negra eleita no país, é a responsável pela criação do Dia do Professor, ao aprovar tal projeto, em 1943, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina — a data seria oficializada nacionalmente em 1963, pelo presidente João Goulart. Oito décadas depois, no mesmo estado, a doutora e coordenadora pedagógica Marlina de Oliveira segue esse legado ao pesquisar e trabalhar com a infância e questões étnico-raciais.

“Tenho meus dois pés fincados na educação e me defino uma professora inquieta. Há um universo de profissionais que, de diferentes funções, educam. Nosso princípio orientador deve primar pelo fortalecimento do serviço público para garantir qualidade e combater toda forma de discriminação”, diz.

Se no passado Antonieta de Barros atuava para combater o analfabetismo, Marlina Oliveira, eleita vereadora na cidade de Brusque (SC), luta pela ampliação do acesso à creche e pela valorização dos educadores. “Há muito trabalho pela frente, os direitos de um povo nunca estão assegurados e é preciso estar em vigilância especialmente no contexto em que vivemos”, afirma

Maria Adelaide

Maria Adelaide, professora por 28 anos, é prova da resistência da categoria ao longo do tempo: “Sempre lutei e continuo, mesmo aposentada há 24 anos. Tenho uma história de muito amor e dedicação a minha profissão, mas não vivemos só de ideal. A vida é prática, você precisa comer, se vestir, morar.”

A docente narra episódios de repressão encarados na ditadura, no pós-regime militar, e de iniciativas de grande engajamento, a exemplo do Movimento Educação e Justiça.”Em 1979, fizemos greves mesmo elas sendo proibidas. Em 1988, protagonizamos no Paraná impressionantes mobilizações na batalha pelo piso nacional de três salários mínimos. Sofremos represália, muitos ficaram machucados quando o batalhão de choque

Iracilde Costa Nobre

Em Bacuritama, no interior do Maranhão, o cenário era também adverso quando da chegada da professora Iracilde Costa Nobre, em 2015, depois de lecionar em outras instituições do estado.

“Vim trabalhar na única escola de ensino médio da cidade na qual se registrava um nível alarmante de evasão escolar (10%) e reprovação (15%) dentre os cerca de 300 alunos. Os jovens não gostavam do ambiente, me preocupou a forma como eram tratados”, ela conta. A polícia entrava para tirar estudantes das salas. Escola não é lugar para isso, aqui é espaço de cidadania, respeito, de tratar de futuro e das aprendizagens.”

Cinco anos mais tarde, a aproximação da escola com elementos da realidade local provocou mudanças. “Somos um celeiro ecológico, temos seis comunidades quilombolas, e as pessoas tinham vergonha de suas origens, de dizerem que eram negras.Fizemos caravanas pela área rural, rodas de conversa para aprofundarmos o autoconhecimento”, ela descreve.

“Estamos construindo novas perspectivas com um pé no passado, um no presente e os olhos no futuro. A educação precisa fazer parte desse processo nesse sonho coletivo”, defende a professora.

Luana Tolentino

O livro “Outra Educação É Possível”, da mestre em educação Luana Tolentino, insere-se no desenvolvimento desses novos paradigmas sobre a atuação dos professores diante da complexidade para lidar com distintas realidades.
“Sempre me lembro de uma conversa que flagrei entre duas alunas. Na época, elas tinham 12 anos. Taís, que é branca, disse:
‘Eu queria ser negra só para ser afro-brasileira igual a minha professora’.Fiquei muito emocionada, pois naquele momento, tive noção do impacto do meu trabalho, do meu compromisso com a educação antirracista”, conta a escritora.
A obra de Tolentino rapidamente tornou-se referência.
Recebo muitas mensagens de professores e futuros professores quase sempre emocionados.Em um encontro com alunos de sétima série de uma escola pública de Belo Horizonte, percebi que a obra podia ser lida por todo mundo. O mais comovente foi autografar as cópias do meu livro feitas em xerox, já que não era possível comprar um exemplar para cada aluno. A despeito dos direitos autorais, tenho certeza de que não há experiência tão emocionante quanto essa para qualquer escritor.

Catalina Ávila

A necessidade de superar erros e abusos é um dos pontos destacados pela professora chilena Catalina Ávila, que enfrentou episódios de hostilidade quando aluna. “Essas situações se deram em um contexto pós-ditadura em que a educação militarizada era muito forte, sobretudo em contextos de vulnerabilidade socioeconômica, como era meu caso. No ensino fundamental, uma professora me acusou de ter copiado um desenho por estar muito bem feito. Para ela, eu não era capaz de fazê-lo bem”, ela recorda.

“Outra vez fui castigada, amarrada e amordaçada com fita adesiva. Depois disso, cresci de cabeça baixa e minha risada desapareceu. Quando era adulta, me dei conta que não sabia qual era o som do meu riso.”
Agora como educadora, Ávila pretende marcar outro tipo de lembrança para si e para os outros: “Sempre estou à procura de respeitar as crianças, vejo elas como pessoas únicas e entrego o melhor de mim.”

Fonte: UOL/Educação