Das 2.900 vagas abertas, 500 não foram preenchidas antes do prazo permitido pela legislação eleitoral

 

Mesmo após autorizar docentes sem formação na área a darem aula, o governo de Rodrigo Garcia (PSDB) não conseguiu contratar o número de professores que calculava ser necessário para atender a demanda das escolas estaduais de São Paulo. Depois de ter concluído o primeiro semestre com parte das aulas sem professores, o governo anunciou a abertura de 2.900 vagas em regime temporário.

Segundo a Secretaria de Educação, foram firmados cerca de 2.400 contratos até sábado (2), último dia em que novas contratações poderiam ser feitas, de acordo com a legislação eleitoral. Assim, do total de contratações previstas para resolver o déficit de professores no estado, 17,2% continuarão sem ser preenchidas até o fim do ano letivo. A secretaria informou que não é possível firmar mais nenhum novo contrato, mas diz que as aulas restantes serão “ministradas por professores eventuais, vice-diretores, coordenadores ou proatecs, além dos estudantes terem o conteúdo inédito por meio do Centro de Mídias”.

Há nove anos sem concurso público e com a implantação de novos programas que aumentaram a carga horária nas escolas estaduais, o Governo de São Paulo não tem professores em número suficiente para dar aula aos cerca de 3,5 milhões de alunos da rede. O jornal Folha de S. Paulo mostrou que, já quase ao fim do primeiro semestre letivo, 17% das aulas nos chamados itinerários formativos – parte do ensino médio que os estudantes podem escolher de acordo com os seus interesses – ainda estavam sem um professor atribuído. Durante esses meses, as aulas foram substituídas por atividades remotas do Centro de Mídias.

O próprio governador chegou a minimizar o déficit de professores, dizendo que era preciso olhar para o “copo meio cheio”, já que a maioria das aulas tinham sido atribuídas a docentes. Na segunda-feira (4), no entanto, disse em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, que não se acomodaria até conseguir completar o quadro de professores.

“Todo desafio de algo novo não é simples. Enquanto tiver 1% de aula sendo dada de forma on-line, o governador não se acomoda”, disse. Segundo Rodrigo, o índice de aulas ministradas de forma on-line no estado é de menos de 10%. A secretaria relaciona a falta de professores à maior oferta de aulas no novo ensino médio e à ampliação do PEI (Programa Ensino Integral), vitrine eleitoral do governador. Desde 2019, o número de escolas de tempo integral no programa passou de 364 para 2.050.

Para especialistas, o déficit de docentes resulta da falta de planejamento para a contratação de mais profissionais, já que os dois programas aumentam a carga horária nas escolas. Também avaliam que o governo não consegue atrair professores pelas más condições da profissão. “O estado mais rico do país não conseguir contratar professores é motivo de muita preocupação. Essa situação deveria levar o governo a questionar quais condições tem oferecido aos seus profissionais. O salário é adequado? O problema atual indica que não”, diz Fernando Cássio, professor de políticas educacionais na UFABC.

Em nota, a Secretaria de Educação disse ter 98% das aulas atribuídas. Questionada sobre os prejuízos educacionais aos estudantes que tiveram aulas de forma remota durante o primeiro semestre letivo, a pasta disse que “a aprendizagem é um processo contínuo, que não se resume a um semestre”.

Fonte: Folha de São Paulo