Não deveria ser uma formalidade o fato de professores, supervisores e diretores de escolas estaduais, associados ao Centro do Professorado Paulista, terem o direito de fazer a prova do Programa de Valorização pelo Mérito, que abre a perspectiva de aumento de 10,5% nos salários. A determinação merece elogios, não só porque abre a possibilidade de melhor remunerar a tão injustiçada classe dos professores da rede estadual, como também por reforçar mais uma tentativa de se fazer valer a meritocracia no serviço público.
Em vez de esperar gatilhos e promoções por tempo de serviço, é de bom tom que a política salarial do Estado preveja estratégias de recompensa que venham ao sabor dos resultados, como já ocorre em larga escala nas melhores organizações da iniciativa privada. Propor uma nova métrica de reajuste salarial, além de reconhecer o mérito profissional, é um virtuoso caminho para tirar o trabalhador público da inércia, da acomodação provocada por benesses do Estado.
Desde a década de 30, diversos estudos corporativos levaram à percepção de que era necessário administrar melhor um dos principais recursos de qualquer organização: as pessoas. Vem das teorias da valorização do capital humano a necessidade que o trabalhador sente de ter o seu desempenho reconhecido pelos superiores. É daí que floresce a importância da meritocracia, oferecendo recompensas aos agentes que proporcionem melhorias importantes para as empresas ou para sua clientela.
Por trás da aura democrática que justifica as políticas de aumento horizontal que beneficiam toda a categoria esconde-se uma lógica perversa, que estimula a lei do mínimo esforço e iguala profissionais de diferentes competências. A consequência é um desvio bastante visível, ora nivelando bons profissionais ao padrão dos piores, ora, o contrário, premiando os piores no mesmo patamar dos melhores. Se todos os empregados de uma determinada organização atingissem benefícios de forma idêntica, medidos pela mesma régua, independente do desempenho, por que esforço por melhoria, por que investir em conhecimento, por que alcançar competências que os diferenciassem da mesmice? No caso dos professores do Estado, a prova de avaliação corrige isso.
Para avançarmos para uma cultura de maior valorização do mérito é necessário que os escalões mais altos do setor público sejam profissionalizados. Nesse ponto, a sociedade precisa cumprir seu papel de cobrança e controle, manifestando-se em desacordo com as designações de cargos que surgem à luz de acordos políticos que enfraquecem a eficiência na gestão. Já passou da hoara de os governos compreenderem que política e administração pública têm de andar em rotas separadas.
Editorial do Jornal Diário de São Paulo, publicação de 16 de agosto.
Secom/CPP
