Wagner Pulzi
Ao analisarmos a cultura do trote, podemos perceber claramente que trata-se de uma agressão completamente sem sentido, a qual contradiz qualquer valor humanista que uma universidade poderia estabelecer. Mais do que isso, se a universidade é classificada como ensino “superior” (notem as aspas), entende-se que a mesma deve desenvolver, principalmente, o pensamento científico e acadêmico, o qual, por sua vez, questiona os acontecimentos e fatos e deve fomentar uma permanente busca por respostas e soluções a determinados fatos ou fenômenos.
Como o trote é algo engessado na cultura, também se contradiz nesse conceito, simplesmente sendo transmitido por gerações sem qualquer questionamento de sua função, aproximando-se, assim, do senso comum, pensamento o qual não se coaduna com os princípios do ensino superior. Dessa forma, o trote é uma inutilidade, não devendo jamais ser resolvido com a simples expulsão de um aluno de uma instituição, mas sim ser encarado como crime, independente de como venha a ser praticado.
Se o trote significa um rito de passagem, por que o mesmo aplica-se apenas no meio acadêmico? Durante o curso da vida podemos passar por diversas situações além dessa citada, como um casamento, a entrada no mercado de trabalho, a geração de um filho, entre outras. Imagine se todas essas situações fossem “comemoradas” por meio de um trote. Muitas pessoas sofreriam trotes diversas vezes, o que prova que tudo na vida é transitório – e devem ser conquistas pessoais marcadas pela alegria e vontade de querer passar por essas situações. Agora, o fato de algo ser transmitido e praticado pelo senso comum sem ser questionado em uma situação onde deveria prevalecer a lógica e o pensamento científico é uma incoerência que jamais deveria fazer parte do meio acadêmico.
Sem contar que ainda poderíamos discutir a forma como o trote ocorre em qualquer situação: ele é sempre praticado por um grupo, nunca por uma única pessoa, denotando claramente que, além de incoerente e desnecessário, trata-se de algo covarde e primitivo, devendo ser enquadrado como crime para que seja, de uma vez por todas, extinto da cultura acadêmica.
E não venham tentar me convencer com campanhas hipócritas de “trote solidário”, pois o nome “trote” já denota que ainda trata-se de um rito de passagem. Se querem realmente uma campanha solidária, que seja para todos, que tenha fundamentação voltada à campanha em si (não visando a entrada dos calouros ou o retorno às aulas) e que seja frequente em todas as instituições, enfocando o motivo da campanha e deixando aberto a quem desejar participar, ou seja, qualquer um que estiver disposto a isso.
Wagner é Professor de Educação Básica II – Educação Física – e mestre em Educação Física (Educação, Escola e Sociedade); possui Licenciatura Plena em Educação Física e Pedagogia, com Especialização em Educação Física Escolar.
