
Projeto “Literatura de Berço” atrai mulheres com filhos de colo, que participam de rodas literárias
A tarde em um dos polos culturais da cidade de São Paulo começou silenciosa. Por volta de 14h de 9 de março, uma sala no primeiro andar da Casa das Rosas, mansão clássica em estilo francês localizada na Avenida Paulista, chamava atenção apenas pelo tapete tatame, colorido, com alguns objetos infantis espalhados sobre ele. O local, reservado para uma roda literária, aguardava mães interessadas em leitura, interesse que trouxe vida ao calmo ambiente. Em minutos, vozes de bebês, entre sons peculiares e risos, misturavam-se à conversação de mulheres. Iniciava-se uma sessão do “Literatura de Berço”.
Implementado em 2013, e com agenda permanente desde o ano seguinte, o “Literatura de Berço” é um projeto idealizado pela psicóloga Cássia Bittens que tem o objetivo de proporcionar momentos de leitura a mães de bebês de até 15 meses (incluindo as crianças na atividade). “A proposta é que a mãe resgaste o hábito da leitura para que posteriormente estimule o filho. A leitura faz um processo de introspecção, que é importante auxiliador no período materno. Ademais, as mães trocam experiências enquanto os filhos têm contato uns com os outros, o que é um ganho secundário para eles”, disse.
Naquela tarde, as mães do encontro apreciaram a leitura convencional – “A breve história de um pequeno amor”, de Marina Colasanti – e participaram da discussão a respeito do livro “A união faz a força: expressões do mito familiar em famílias negras”. A autora, Reimy Solange, psicóloga, mestre e doutoranda na área, abordou o racismo, tema atual que converge com a proposta reflexiva do “Literatura de Berço”. O diálogo tratou de preconceito, uma vez que, segundo Reimy, crianças não nascem preconceituosas, tornam-se preconceituosas ao longo do contato com os adultos.
“Em geral, na mídia, as famílias negras são tratadas de forma desqualificadora, de maneira enviesada, muitas vezes com a história não contada pelos próprios atores. Então, o livro e as discussões decorrentes ajudam as pessoas a compreender melhor as características da raça negra, partindo da base parental”, afirmou Reimy. O trabalho, que corresponde a uma tese de mestrado, é novidade no ramo editorial, uma vez que a literatura brasileira, na avaliação da autora, não compreende o tema em âmbito psicanalítico.
Umas das mães presentes, Andrea Pereira, saiu da sessão satisfeita e convicta de que a participação terá resultado a longo prazo. “Às vezes eu penso que estou agindo errado em relação à criação do meu filho, cobro-me muito. Dessa forma, ao ter contato com outras mães, conversando, percebo que a troca de experiências é uma grande contribuição, especialmente por contar com leitura”, concluiu a fonoaudióloga, já prevendo o futuro do pequeno Gabriel. “Meu filho será um leitor. Esse estímulo é só o começo.”
