Nilberto Amorim

Celso Antunes tem um modo peculiar de dizer a verdade sobre a escola brasileira. O próprio título do livro Escola Mentirosa: sucesso ou estagnação (São Paulo, Paulus, 2013) bem expressa isso. E o leitor, afeito já a descrições dessa escola mediante termos ásperos, depara-se aqui com autor que dá passo adiante nessa mesma linha de vocabulário: “ambivalência”, “hipocrisia”, “teatro”, “faz de conta” e … “mentirosa”.

O resultado é que ele – o leitor – vê-se posto diante de exímio retrato de escola assolada por vícios e degenerações: escola cujas aulas não ensinam, cujos livros e apostilas tapeiam, computadores que dormitam trancados em salas secretas, planejamento de mentirinha, recuperação que é uma farsa, avaliação que é uma balela e projeto que é enganador. Mas não apenas isso. Há o currículo proclamando-se interdisciplinar quando, de fato, é uma coleção de disciplinas soltas, fragmentando o conhecimento e incorrendo no mesmo vício da mentira. Veja-se, por exemplo, o que é afirmado acerca da História, vista como autêntica fábrica de mitos e falsos heróis: “A História que se deveria aprender não é a mítica e vergonhosa farsa de imbecis transformados em heróis… (p. 19)”; e o diapasão segue acerca de outras matérias de ensino. E inútil é tentar desmentir Antunes, pois os fatos apontados por ele tem grau máximo de convencimento.

O que parece ficar aquém de convencimento são explicações para as causas do quadro trágico que o livro traz. Daí eu me permitir aqui – humildemente – sustentar uma hipótese com vistas a suprir tal lacuna. A hipótese é que os anacronismos e perversões apresentadas por ele constituem sintomas, efeitos ou consequências de um mal bem mais amplo, inerente à própria civilização contemporânea. Ora, sabe-se que os valores ético-morais são elementos tão fundamentais para a educação quanto é a água para o peixe. Mas, o que se tem na atualidade é um terrível vácuo deles. No limite, o que se vê é o desaparecimento das condições de possibilidade, ou seja, dos lastros de valores e significações humanas requeridos para a escola realizar sua obra educadora. O que não significa, de modo algum, isentar a escola de responsabilidade por seus desconcertos (a posição de Antunes é certeira ao denunciar e responsabilizar enfaticamente os agentes escolares).

De qualquer modo, a banalização ou presença apenas pro forma de projetos na escola é ocorrência deveras surpreendente e inesperada, pois, se há espaço social em que projetos se tornam absolutamente imprescindíveis, tal espaço é o da escola. E tudo fica mais grave quanto mais se tem presente que as ações só se tornam verdadeiramente humanas se em vínculo com projeto digno desse nome, isto é, projeto assumido como o próprio “modo de ser do ser humano”. A conclusão, portanto, é que estamos diante de um fenômeno que se enraíza fundo no próprio caráter da sociedade maior – mísera de projetos e utopias esperançosas.
 

É claro que o autor não chega ao ponto de sugerir que o mentir se aprende na escola. Em compensação, realça bem a atitude de recusa e de jogo-de-empurra assumida pela escola com relação ao ensino de valores: “Fecha-se assim o ciclo vicioso: a escola passa a bola para a igreja, que toca de primeira para a família, que espera por instituições específicas, que, por sua vez, a atiram de volta para a escola, onde o ciclo se reinicia.” (p.83). A omissão é simplesmente absurda e escabrosa. Primeiro porque “Enquanto essa discussão esquenta, a corrupção corre solta e, desgastada pela rotina, é encarada como imbatível, a mentira passa a ser aceita como discurso estratégico, o crack agradece, programas deseducativos ganham patrocínios milionários e os traficantes, satisfeitos, locupletam seus lucros.” Em seguida, porque a matéria dos valores se desloca para outras esferas sociais nem sempre honradas, como é o caso de agentes políticos que pregam valores – honra, honestidade, verdade, dignidade, justiça, tolerância etc – mas, quando se vai ver, são “mensaleiros, boateiros, gazeteiros, propineiros, ratoneiros e interesseiros que assolam a todos nós” (p.43).

O texto de Antunes traz conteúdo gravíssimo e exige consideração por parte de todos. E não custa dizer que reconhece as exceções, ou seja, ressalva as escolas de boa qualidade. No mais, está se reportando, sem distinção, a todas – públicas ou privadas, escolas de gente pobre ou de gente rica, escolas de instalações suntuosas ou as que mais parecem “pocilgas”, na terminologia do próprio. De igual maneira, convém lembrar que o texto – parente próximo de “Valores proclamados e valores reais” de um educador do passado – é duro, mas foi escrito com ternura; aliás, com amor, conforme declaração dele.

Nilberto é professor e associado do Centro do Professorado Paulista (CPP)