
A importância das avaliações, pesquisas e análises para aferir a eficácia das políticas públicas e para apontar caminhos permanentes de aprimoramento norteou as discussões e palestras do primeiro dia do Seminário Internacional Caminhos para a qualidade da educação pública: Impactos e Evidências, promovido pelo Instituto Unibanco, em parceria com a Folha de S.Paulo, em São Paulo. O evento reúne até nesta sexta-feira, 16 gestores de políticas públicas, diretores, coordenadores pedagógicos, pesquisadores e técnicos de secretarias de educação. O presidente do conselho de administração do Instituto Unibanco, Pedro Moreira Salles, e o Ministro da Educação, Mendonça Filho, abriram o seminário na quinta-feira, 15 de setembro.
Moreira Salles destacou o poder transformador da educação para mudar a sociedade. “Precisamos da boa gestão para ultrapassar os muros que separam a sociedade de hoje da que queremos construir. Muitos projetos são excelentes em termos de potencial, mas dependem da educação e do contexto para se mostrarem efetivos. Apenas a prática mostrará se darão resultados”, disse Salles. “O projeto Jovem de Futuro foi criado exatamente com base nesse princípio. Somente juntos, educadores, gestores, Terceiro Setor e academia, atuaremos de forma consequente e transformadora, mostrando aos jovens que andam desacreditados da ideia de que estudar vale à pena”, completou.
O Ministro Mendonça Filho também enfatizou a influência da gestão para o sucesso das políticas educacionais. “Supervisão, monitoramento e planejamento devem estar presentes na gestão pública, inclusive na educação. Temos um enorme desafio pela frente. Superamos os desafios de inclusão e do acesso, mas quando se avalia a qualidade estamos muito distantes do que seria razoável para um país que é a 8ª economia do mundo”, afirmou.
A experiência bem sucedida do projeto Jovem de Futuro, tecnologia educacional desenvolvida e implementada pelo Instituto Unibanco, cuja atuação é focada na gestão escolar para garantir a aprendizagem dos estudantes, foi apresentada pelo superintendente executivo Ricardo Henriques. Ele ressaltou a importância da avaliação, baseada em métodos científicos, para a produção de evidências que colaborem para compreender o impacto das políticas educacionais. “As boas práticas de gestão se traduzem em uma escola de melhor qualidade. Para conhecermos as melhores ações, no entanto, devemos submetê-las ao teste e saber se fazem sentido”, disse Henriques.
A avaliação do Jovem de Futuro demonstrou que, nas escolas onde o projeto foi implementado, em parceria com as secretarias de educação dos estados, houve aumento de cinco (5) pontos no desempenho dos estudantes na escala do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica). Isso significa 80% do que se aprende tipicamente em uma série do Ensino Médio e, portanto, o efeito do Jovem de Futuro é similar ao que aconteceria caso essa etapa escolar passasse a ter uma série a mais. O resultado é também superior ao progresso em proficiência alcançado por 85% dos estados brasileiros. “É a construção de um caminho que aumenta as chances de que as crianças e jovens aprendam aquilo que esperamos que aprendam”, falou Henriques.
A metodologia usada para avaliar o impacto do Jovem de Futuro foi aplicada pelo pesquisador Ricardo Paes de Barros, economista chefe do Instituto Ayrton Senna e professor no Insper, e é considerada inovadora para a área de políticas educacionais. Barros explicou no seminário como a metodologia aplicada, chamada Experimento, chegou ao impacto do Jovem de Futuro, medindo o desempenho acadêmico dos alunos por meio das proficiências em Língua Portuguesa e Matemática, ao final da 3ª série do Ensino Médio, três anos após o início da implantação do projeto. “Os resultados evidenciam o impacto positivo que o Jovem de Futuro teve nessas escolas”, disse.
Avaliação é fonte de informação para o gestor
No fim da manhã de quinta-feira,15, o educador Greg Welsh, da Universidade de Nebraska (EUA), participou do painel “Produção e uso de evidências para aprimorar políticas educacionais”, e apontou que toda avaliação de impacto deve estar a serviço dos gestores. “As avaliações existem para serem fontes de informação para gestores e formuladores de políticas educacionais”, disse.
À tarde, o assessor especial do Ministério de Educação e Cultura da Finlândia, Ilkka Turunen, demonstrou como um dos sistemas educacionais mais desenvolvidos do mundo trabalha para gerar impacto na aprendizagem. O sistema educacional finlandês atua com avaliações em larga escala, porém as escolas têm autonomia para atuar diretamente na melhoria do desempenho dos alunos. Segundo ele, os alunos são avaliados diariamente pelos professores. “O objetivo da avaliação é desenvolver a educação, dar apoio ao aprendizado e nos processos decisórios. Mas lutamos contra a ideia de ter sistemas de testes padronizados porque sabemos que a padronização não é a melhor opção para desenvolver a educação”, disse Turunen, destacando a importância e os investimentos nos educadores do país. “Se tenho algo para dizer hoje é ‘nós confiamos nos professores e investimos no apoio a eles’”, completou.
O mexicano Miguel Székely, diretor do Centro de Estudos Educativos e Sociais do México, falou das novas características de um gestor escolar. “O papel do professor mudou. A gestão também. No modelo antigo escolar, um gestor era um administrador de recursos, quase um contador. Agora tem outra função, como o projeto do Instituto Unibanco tem mostrado no Brasil, pois ajuda os gestores a organizarem a escola para facilitar o aprendizado. A gestão ajuda o líder a ter um papel de líder e não apenas de administrador”, destacou Székely.
Já o Edoardo Masset, da organização International Initative for Impact Evaluation (3IE), destacou que o sucesso de um programa ou de uma política educacional depende do desenho da ação e de sua adequação ao contexto ao qual se destina. “No caso da educação, as intervenções não podem ser replicadas para outros lugares sem considerar a realidade local”, afirmou. Uma meta-análise realizada com 2.054 avaliações de impacto de programas educacionais de várias partes do mundo realizada pela 3IE demonstrou que os programas com múltiplas intervenções tendem a ser mais eficazes. O estudo também concluiu que é difícil isolar cada componente, a fim de compreender qual é o que produz mais efeito sobre o resultado de um programa.
Pedro Carneiro, do University College London, enfatiza a necessidade de “abrir a caixa preta” das avaliações de impacto para identificar os aspectos que são mais eficazes. “É importante abrir a caixa preta para conhecer quais aspectos funcionam, quais necessitam de reforço e se é possível replicar os resultados”, falou.
Também estiveram presentes no evento secretários estaduais de Educação dos cinco estados parceiros do Instituto Unibanco, que são Ceará, Espírito Santo, Goiás, Pará e Piauí, e outros como Distrito Federal, Santa Catarina, Pernambuco e São Paulo.
