Atualizado em 02 junho, 2025 às 14:55

Afastamento de diretores escolares é ação controversa e discutível

Foto: Envato

A educação pública paulista se transforma, infelizmente, em palco para práticas punitivistas, autoritárias e ineficazes. A decisão do Governo do Estado de São Paulo de afastar diretores escolares com base em índices de desempenho no Saresp e no Saeb é um exemplo lamentável dessa lógica perversa. A medida é ineficaz, injusta e profundamente desrespeitosa com os profissionais da educação.

Trata-se de uma política que ignora as causas reais da queda na qualidade da aprendizagem. A precariedade da infraestrutura, a dificuldade de acesso às plataformas digitais criadas pelo próprio governo, a desvalorização profissional e a ausência de condições mínimas de trabalho são elementos centrais que deveriam ser enfrentados com seriedade. Mas, não. O caminho escolhido é o mais fácil: punir quem está na ponta, quem diariamente enfrenta os desafios reais da escola pública.

Ao menos seis diretores de escolas já foram afastados neste ano, apenas na rede estadual. A Prefeitura de São Paulo, que segue a mesma cartilha punitivista, afastou outros 25. Esses desligamentos estão sendo feitos com base em uma resolução publicada em janeiro de 2024 que estabelece metas de desempenho para os alunos, sem considerar o contexto das escolas, sem ouvir a comunidade escolar, sem critérios claros, objetivos e, principalmente, justos.

Diretores estão sendo humilhados e expostos, tratados como se fossem os únicos responsáveis pelos resultados de uma educação fragilizada por décadas de políticas equivocadas. O ambiente escolar torna-se cada vez mais hostil, a aprendizagem real se distancia da sala de aula, e a imposição acrítica de atividades online — intensificada desde a gestão anterior — acentua ainda mais essa desconexão entre o ensinar e o aprender.

Não é com punições e medo que se melhora a educação. É com diálogo, investimento e valorização dos profissionais. A pedagogia da libertação, que defendo há décadas, busca construir sujeitos críticos, capazes de transformar a realidade. Já a pedagogia do medo, que hoje se impõe como política de Estado, só serve à dominação e à perpetuação das injustiças.

Educar não é submeter. Não é silenciar. É libertar. Como nos ensinou Eduardo Alves da Costa, em versos que ecoam em tempos difíceis:

“Na primeira noite eles se aproximam

E roubam uma flor do nosso jardim.

Na segunda noite, já não se escondem

Pisam nas flores, matam nosso cão,

E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles

Entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

Conhecendo nosso medo,

Arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.”

A educação pública não pode calar. Nós, educadores, seguiremos defendendo a escola pública com dignidade, coragem e consciência crítica. E denunciando toda tentativa de transformar nossos espaços de aprendizagem em campos de opressão.

*Professor Azuaite Martins de França é 2º Vice-Presidente do Centro do Professorado Paulista – CPP