Foto: Folha. A professora Lidiane Lima, 36, que dá aulas na Zona Sul de SP

As duas são professoras da rede pública, têm idades próximas e foram premiadas por trabalhos inovadores em sala de aula. Mas quando o assunto é o controverso retorno presencial às escolas, as opiniões divergem.

Cética em relação à volta, Lidiane da Silva Lima, 36, leciona português em São Paulo. Em 2019 ela venceu o prêmio Educador Nota 10 com projeto de poemas que desconstruíram imaginário sobre a herança africana. Defensora do retorno, Eveline Andrade Dias, 38, leciona geografia e sociologia em Elias Fausto (a 131 Km de SP). Ela venceu o Professores do Brasil em 2018, prêmio do Ministério da educação, com projeto que envolvia debates sobre a organização do Estado.

Elas relataram como se sentem no retorno, após quase um ano, ainda em meio à pandemia. E mostram clareza de que tanto elas quanto os estudantes perderam muito com o ensino remoto.

Lidiane Lima diz que a escola não é um lugar para se ir com medo. Professora da capital paulista, reconhece que alunos estão sofrendo com ensino remoto, mas afirma que não há condição para o retorno
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Abaixo leia a entrevista com Lidiane, que se mostra contrária ao retorno ao presencial:

Portal CPP: Como você se sente prestes a voltar às aulas presenciais depois de quase um ano com escolas fechadas?

Bastante aflita e um pouco triste. Esta é uma época do ano em que eu costumo estar muito motivada, ansiosa pelo primeiro contato com os alunos, com ideias fervilhando. Por outro lado, esse ano que passou basicamente inexistiu. Então as duas opções postas – o ensino remoto e à volta à escola neste momento, com risco de contágio pelo coronavírus – são bastante frustrantes.

Como é chegar à escola com esse clima?

Ensinar para mim também é um ato político, e estar fora da sala de aula representa uma pausa na modificação que eu desejo ver no mundo. Mas a escola não é um lugar para se ir com medo, apreensiva. Como construir vivências significativas num ambiente hostil? A escola para mim é um lugar de cura, de resgate de autoestima.

E a experiência com o ensino remoto, por outro lado, como foi?

Inicialmente fui bastante relutante ao ensino remoto porque sabia que muitos alunos não teriam acesso. Eu também não tinha um bom notebook e uma internet adequada. Lá para maio, junho, já estava até um pouco depressiva. Sentia que os poucos alunos que tinham acesso às aulas esperavam algo de mim. Sempre fui a professora animada, que tem ideias mirabolantes. Vi que precisava fazer alguma coisa, e então tive experiências incríveis, mas com 18 alunos, de um total de 150. Fiz uma competição de poesia falada online, que a comunidade viu também, virtualmente. Estudamos o gênero debate e fizemos dois debates, um sobre a questão do abuso sexual e outro sobre aborto. Foi interessante.

E os demais que não participavam das atividades, o que justificaram?

Era evidente a dificuldade mesmo entre os que acessavam. Quando eu pedia para abrirem as câmeras nas aulas, via alunos encolhidos no quintal para pegar o wi-fi do vizinho, ou tentando pegar a rede em alguma praça. Muitos, porém, não acessavam dizendo que não tinham internet, e muitos não acessaram porque não quiseram. Me preocupo muito com a perda do vínculo deles com a escola por causa desse isolamento extenso. Eu sinto que tenho estudantes na condição de total desânimo e falta de conexão.

O governo tem dito que as escolas foram equipadas para atender as novas exigências sanitárias?

Parece ilógico que tudo esteja aberto menos a escola, mas acho que é balela a história de o Estado de estar preocupado com a saúde mental dos estudantes e aprendizagem. Se essa preocupação existisse, o certo seria planejar o acesso online e garantir que todos conseguissem aprender de forma remota.

Qual é exatamente a preocupação com a volta presencial?

Estamos entre a situação atual, que não atende nossas necessidades, e a volta que não é segura. Na minha escola, toda a equipe de gestão já pegou Covid. Compartilhamos notebooks e nunca temos livros didáticos para todos os alunos. Eles sempre têm que compartilhar. E também acho muito difícil pedir para os estudantes não se aglomerarem, a gente vê na rua que eles não têm feito distanciamento. Além disso, estamos apreensivos porque a proposta é de ensino híbrido [presencial para parte dos alunos e remoto para os demais], o que aumentaria nossa carga de trabalho, para atender tantos os que vão à escola como os que não vão.

Já a professora Eveline Dias afirma que é nosso ambiente de convivência, do olhar, do gesto. Docente que atua no interior de São Paulo reconhece que há risco de contaminação, mas diz que o prejuízo da escola fechada tem sido maior.

Como você vê a perspectiva de voltar às aulas?

A escola precisa voltar. Ela vai além do aspecto acadêmico, é um ambiente de organização social. Envolve a alimentação, a organização da rotina diária, um lugar para deixar os filhos. Então tem esse desejo de retornar porque é o nosso ambiente de trabalho, da convivência, da reciprocidade do olhar, do gesto. À distância temos aprendido, mas tem grande escassez de recurso e, no meu caso, grande parte dos estudantes foi trabalhar. Mas, além do desejo de voltar, tem o medo.

Como tem sido lidar com isso?

Acredito que o diferencial é a condução dos protocolos. Na escola estadual, tem mais estrutura e uma equipe gestora que conduz as coisas com muita segurança. Eu sei o que tenho que fazer, me sinto acolhida. Quando não há essa condução, e a proposta é “vamos voltar para ver o que acontece”, dá mais receio. Vejo que muitas redes chegaram em janeiro ainda perguntando como fazer para o retorno, quando isso deveria ter sido pensado em junho.

E no aspecto pessoal, qual é o sentimento? O que mais te motiva a voltar?

O trabalho em casa com duas crianças em idade escolar é catastrófico. Temos que trabalhar como se não tivéssemos que cuidar das crianças e cuidar das crianças como se não tivéssemos que trabalhar. Já os alunos sofrem com a questão do acesso. Sempre vemos fotos de situações de guerra, nessas circunstâncias o primeiro lugar a se reerguer, sob os escombros, é a escola. Ao mesmo tempo, no ano passado perdemos um colega muito querido e tudo isso gera um medo, uma ansiedade.

E o risco de contágio, como vê?

Não me sinto segura. Sou uma pessoa grudenta [risos]. Abraço, beijo, passo por cada um, olho no olho. E agora o meu jeito de ser se tornou um risco à saúde. Não sei como vai ser dar a aula com distanciamento. Eu me sentiria mais segura com a vacina, mas esta é a realidade. Talvez o prejuízo da escola fechada seja maior. Mas preciso ressaltar que a minha escola [estadual] está preparada, tem uma área verde imensa, as salas são grandes e a equipe de gestão é muito boa. É uma realidade privilegiada, que a gente sabe que não dá para comparar com outras porque é a minoria.

Qual é a condição das escolas em que você leciona?

Na escola estadual, o telhado foi reformado, o banheiro dos professores foi reformulado para melhorar a ventilação, a lavanderia também foi readequada, assim como os banheiros e bebedouros do ginásio, e os fluxos de pessoas foram demarcados. Ainda assim não estou 100% segura. Pode ter sido, mas não houve essa informação, o que deixa a gente sem saber para onde ir [na sexta-feira (5), após a entrevista, Eveline disse que a prefeitura de Elias Fausto divulgou o plano de retorno, e cada professor recebeu um protetor facial e a indicação de um curso sobre os protocolos de segurança].

Fonte: Folha de São Paulo