Reinaldo José Lopes

A proposta para o ensino de educação física presente na segunda versão da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), divulgada pelo Ministério da Educação, peca pelo excesso de ambição.

É louvável o esforço de evitar que a disciplina fique limitada a bate-bolas informais na quadra da escola, como costuma acontecer em muitos lugares, mas fica difícil evitar a impressão de que os responsáveis pelo currículo proposto tentaram abraçar o mundo.

A base prevê que os alunos sejam apresentados às mais diferentes modalidades esportivas, do handebol ao vôlei, passando pela bocha.

O esboço do programa propõe ainda atividades “de aventura”, como trilhas em parques; o aprendizado e valorização de brincadeiras regionais e ligadas à tradição folclórica; diferentes tipos de dança, também com enfoque nas manifestações populares e tradicionais; ginástica sem e com aparelhos; e a prática de esportes que valorizem a herança africana e indígena do país, como a capoeira e a huka-huka (luta ritual dos povos nativos do Xingu).

Por maior que seja a boa vontade e o nível de conhecimento do professor (o qual, aliás, precisaria realmente alcançar níveis enciclopédicos diante de tanto conteúdo), é muito improvável que ele conseguisse lidar com todos esses itens de forma satisfatória ao longo de apenas um punhado de aulas semanais, mesmo que os temas fossem trabalhados ao longo de todos os anos do ensino fundamental, como diz a proposta.

É preciso esclarecer que essa imensa diversidade de temas está prevista só para o ensino fundamental, porque quase não se detalha no documento o conteúdo previsto para os anos do ensino médio, os quais, por conta da obsessão com o vestibular, muitas vezes já deixam de lado naturalmente a educação física.

De qualquer modo, mesmo que as atividades tivessem uma distribuição mais gradual, incluindo os três últimos anos antes da chegada ao ensino superior, ainda seria muita coisa.

O ponto mais negligenciado na elaboração de um currículo ambicioso talvez tenha sido a necessidade de dar vários passos para trás e se perguntar, afinal, qual o objetivo do ensino de educação física.

Os gregos antigos, por exemplo, enxergavam a prática de esportes com uma etapa indispensável da preparação militar dos jovens. Obviamente, não é o caso aqui.

Reinaldo é colaborador da Folha de São Paulo