Segunda metade dos anos 1950. As garotas precisavam escolher o que fazer no colegial. Muitas cursavam o normal, outras, o secretariado. Entre o científico e o clássico, algumas iam quase automaticamente para o segundo. Nos liceus masculinos, ofereciam-se opções como química industrial e contabilidade. Os garotos saíam do então colegial com um diploma técnico, aptos a atuar em setores com forte apelo à época – quando vigorava a chamada “Reforma Capanema”, instituída pelo Ministério da Educação varguista, em 1942.

 

Nos anos 1970, os alunos passaram a optar entre humanas, exatas e biológicas, e os exames vestibulares também foram segmentados por área de concentração. O recuo histórico faz-se necessário. O governo federal apresentou sua intenção de alterar mais uma vez a organização curricular do ensino médio no Brasil. As justificativas baseiam-se em números que impressionam: metade dos alunos brasileiros abandona a escola durante essa fase, e 15% dos jovens de 15 a 19 anos nem sequer estão matriculados.

 

Para combater a situação, a proposta oferece “um museu de grandes novidades”. Ela determina a organização do currículo a partir de quatro áreas – linguagens, ciências humanas, ciências da natureza e matemática. Nas duas últimas séries do ensino médio, os alunos deverão decidir por concentrar seus estudos em uma delas ou numa quinta opção (profissionalizante).

 

Eles também poderão permanecer um ano a mais e cursar outra área. Já os exames vestibulares realizarão provas diferentes, de acordo com a percurso formativo. A distância entre as disciplinas oferecidas e os “desejos” do jovem é a explicação dada pelas autoridades para a evasão e os péssimos resultados em exames como o Saeb. A reforma aproximaria estrutura curricular e o mundo do trabalho.

 

Percebe-se que existe uma leitura intencional das aspirações juvenis. Para o Ministério da Educação, o estudante deve tornar-se rapidamente um técnico disponível para o mercado, e o segmento médio, um agente formador de mão de obra.

 

Afinal, tudo o que o jovem, especialmente o mais pobre, quer e precisa é trabalhar, ainda que não haja empregos ou oportunidades razoáveis para os recém-formados. Em semelhante contexto, a formação cultural mais ampla e a oferta de disciplinas eletivas, que aumentem a visão de mundo e ofereçam um leque de oportunidades em outras esferas, como a arte ou a ação social, ficam em segundo plano.

 

Além disso, cabe ressaltar: poucos são aqueles que, aos 15 anos, sabem distinguir com clareza o que almejam para seu futuro, ou mesmo quais áreas de saber devem ser priorizadas para uma profissão. Outros questionamentos rondam as intenções do governo. O montante de investimentos necessários para adaptar o ensino público à nova carga horária e à instalação de cursos profissionalizantes em todas as escolas não é desprezível, ainda mais numa época em que se discute um ajuste fiscal severo. Espera-se que todos os atores sociais comprometidos com a educação contribuam para o debate.

Flora Bender Garcia é doutora em teoria literária e literatura comparada pela USP

José Ruy Lozano é autor de livros didáticos e professor de produção textual do Instituto Sidaria