O Fórum “Educação – Como o Brasil pode dar um salto de qualidade”, organizado pela revista Exame, reuniu nesta semana especialistas no tema. Realizado na sede da editora Abril, em Pinheiros, o evento abordou a educação brasileira a partir de análises de caso, dados econômicos e condições igualitárias de oportunidades. Os assuntos foram interpretados por Barbara Bruns, economista-chefe do Banco Mundial na área de educação na América Latina; Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna; e Renato Janine Ribeiro, ministro da educação.
Por meio de um trabalho do Banco Mundial que compreende visitas a diversas salas de aulas na América Latina, mais de 18 mil, sendo a maior parte do Brasil, a pesquisadora Barbara mostrou os entraves identificados. Inicialmente, a avaliação concluiu que o País gasta mais com educação do que nações desenvolvidas e conquista menos na área. Com base em dados de 2011, o gasto público com instituições educacionais chegou a praticamente 4,5% do PIB (Produto Interno Bruto) no Brasil, enquanto o índice da Finlândia foi de 4%; dos Estados Unidos, 3,4%; do México, 3,3%. A média de investimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no período foi de 3,8%.
De acordo com Barbara, o resultado sugere que os problemas relacionados à educação não ocorrem por falta de investimento, e sim por questões administrativas. Outro ponto do estudo detalha que os professores são mal treinados para gerenciar a sala de aula, por exemplo. Comparado aos EUA, os profissionais brasileiros perdem um dia de aula por semana, na maioria das vezes por causa de atividades não acadêmicas, como realização de chamada e arrumação de sala. A conclusão é pela diferença de 21% no tempo gasto com atividades acadêmicas, 85% no país norte-americano e 64% em território brasileiro.
“Entre os empecilhos, considero que a precária valorização do educador é determinante. Perceba que há bons e maus professores, como qualquer profissional, mas os maus não são advertidos, assim como os bons não são reconhecidos e estimulados”, pondera Barbara, sustentando o argumento no modelo asiático de alto desempenho. Segundo ela, países asiáticos compreendem sistema de avaliação individual de professores, o que determina promoção por desempenho, sanções para os que não atingem os padrões, bônus salarial para alto desempenho e plano de carreira atrativo.
Como dicas para o Brasil avançar na área, a pesquisadora sinaliza melhora no nível dos professores, por meio de prova nacional do conhecimento, que não permita contratação efetiva sem padrão mínimo, além de certificação alternativa. “Pessoas de outras áreas sem formação pedagógica, porém talentosas, podem contribuir para o quadro educativo.”
Na avaliação do economista do Instituto Ayrton Senna, as dificuldades passam também por falta de igualdade. Para Ricardo Paes de Barros, a educação boa tende a ser ofertada aos mais ricos, fazendo com que se percam ótimos talentos. “É preciso estabelecer direito de oportunidades iguais no Brasil, porque ninguém nasce com mais ou menos inteligência, nasce sem chance de praticar o saber”, diz. Barros reforça que de cada 100 brasileiros, 65% completam o ensino médio, taxa considerada baixa para uma nação que tem renda per capita de R$ 14 mil/ano. “Nossa escolaridade é de um país com renda de R$ 7 mil, ou seja, a economia tem feito milagre ao produzir o dobro”, conclui.
Sob a ótica de desigualdade, o ministro da educação lamentou a discussão de “ideologia de gênero”, que ofuscou outras questões importantes dos planos nacional, estaduais e municipais de educação, destacando a necessidade de combate à discriminação e preconceito, e adiantou que o Brasil mostra potencial educativo quando vence a Coreia, por exemplo, em olimpíadas de matemática. “Sabemos que ainda falta muito, sim, mas temos que nos espelhar e tratar de ampliar o que tem dado certo.”
