Quando o cinema surgiu, mais ou menos uns 120 anos atrás, não faltou quem dissesse que era coisa de desocupado, de marginal, de gente pobre, de gente analfabeta. Se você era “de família”, intelectual, fino, elegante, não frequentaria um ambiente em que se pagava apenas um níquel para entrar. Da mesma forma, nos anos 1950, quantas escolas não fizeram fogueiras de revistas em quadrinhos porque elas tinham “má fama”?

A bem da verdade, não podemos ver uma novidade que a gente fica enjoado. E o pior é que eu mesmo nem acredito em novidades mais. Toda vida que a gente pensa que descobriu a pólvora, quando vai ver, sempre tem um chinês que veio antes. Mas estou falando isso para tocar no assunto febre do momento e perguntar: quantos de vocês já condenaram o Pokémon Go? Não responda para não se constranger, mas eu quero perguntar uma coisa ainda mais importante: alguém aqui já viu uma pintura, um afresco renascentista de Rafael Sânzio, chamado A Escola de Atenas? Nessa imagem vemos um monte de filósofos da Grécia antiga e no centro temos Platão e Aristóteles. Platão aponta aos céus. Aristóteles, seu aluno, para o chão. É a tentativa de se separar o mundo das ideias do mundo sensível, o mundo real.

Ah!, se fosse assim tão fácil. Talvez no tempo em que a Grécia era antiga as coisas fossem mais fáceis. Hoje, o Pokémon Go não deixa mais, pois a base desse jogo é justamente a realidade misturada. E provavelmente por isso mesmo esteja causando polêmica pelo simples fato que nós, seres humanos (especialmente brasileiros nos tempos atuais, tão sensíveis a tudo) adoramos uma polêmica. Somos barraqueiros por natureza. Tenho certeza que fomos expulsos do Éden não por causa da mordida na maçã, mas pelo barraco que deve ter rolado com a cobra depois que o casal de naturistas afanou a fruta dela.

Enfim, como disse, o jogo tem uma mecânica (ou seja, tem uma forma de jogar) baseada em realidade misturada. Ou seja, ele mescla elementos reais com elementos que não são reais fora do celular, por exemplo. Sim, porque você não toca os pokemons, ou seja, eles não fazem parte do nosso mundo sensível. O termo realidade misturada, filho da Realidade Aumentada que, por conseguinte, é filho da Realidade Virtual foi usado pela primeira vez no campo computacional por Paul Milgram e Fumio Kishino no ano de 1994 em experimentos que mesclavam imagens reais com elementos que não eram pokémons, mas que você só via a partir da mediação eletrônica.

Pokémon Go não foi o primeiro jogo de realidade misturada. Três anos atrás o sucesso era um jogo chamado Ingress. Mas como ele não tinha bichinhos coloridos e fofinhos para se caçar, não fez tanto barulho como o Pokémon de hoje.

Ferreira Gullar, Nietzsche e diversos artistas e pensadores da arte argumentam que a arte faz com que a realidade nos seja, simplesmente, suportável. Sim, pois é através da arte, dos sentidos e significados que colocamos no mundo através dela e de tudo o mais que vem do mundo das ideias de Platão que o mundo sensível de Aristóteles começa a fazer mais sentido. Nossas ideias são o rastro que deixamos no mundo. Nossas pegadas no planeta. Ao mesmo tempo em que o ambiente nos influencia, nós também interferimos nesse mesmo ambiente (muitas vezes de forma negativa). Colocar um pokémon na paisagem urbana, ou uma Iracema virtual no calçadão da praia, é uma maneira de torná-la até mais atraente em determinados aspectos.

As ideias, a arte, a mídia contemporânea cada vez mais se espalha. Até agora não vi ninguém reclamar dos grafites nos muros. Das peças de teatro nos terminais, dos eventos musicais ao ar livre. Estamos nos espalhando, deixando rastros. Obviamente que tudo em excesso faz mal (apesar de que poucas pessoas vão reclamar se você passar quatro ou cinco horas por dia lendo, mas experimente passar essa mesma quantidade de tempo no videogame). Contudo, quem de nós consegue perfeitamente definir fantasia de realidade?

Phillip K. Dick, renomado escritor de ficção-científica, e Jorge Luís Borges, autor de literatura fantástica, escreveram de forma precisa sobre os limites tênues entre realidade e ficção, ou mesmo sobre o peso excessivo que a realidade pode ter sobre nós (como no primoroso conto O Aleph de Borges). O próprio conceito de Realidade Misturada de Migram e Kishino citado mais acima é algo que só foi percebido (ou criado) dez anos depois da noção de ciberespaço (essencial para a realidade virtual, avó da realidade misturada) ter sido cunhada por outro artista da ficção científica: William Gibson em Neuromancer. E é a partir da mixagem, entre o ciberespaço dos pokémons e a paisagem que nos cerca que realidade e ficção ficam cada vez mais embaralhadas. E isso é atraente. Ou ainda não chegaram até você notícias de crianças autistas que detestam sair de casa e que agora cada vez mais recebem a luz do sol porque diariamente vão caçar pikachus? Ou mesmo de pessoas que passaram a conhecer a própria cidade onde vivem e descobriram que, apesar de tudo, ela não é tão perigosa assim?

Claro que não acho saudável ninguém com smartphones em ruas desertas na calada da noite procurando pokémons. Mas que tal deixarmos a realidade um pouco mais leve e reaprender a brincar na rua?

 

Nílbio Thé
Coordenador da Pós-Graduação em Desenvolvimento e Programação de Games da Unichristus, Professor do curso de Audiovisual e Novas Mídias da Unifor, arteducador e Historiador da Arte

Fonte: “O Povo”