“Não dá mais para nos iludir, cobrindo as feridas da Terra com esparadrapos. Ou mudamos de curso, preservando as condições de vitalidade da Terra, ou o abismo já nos espera.” Leonardo Boff

 

Entre 2018 e 2019 foram liberados no Brasil 524 tipos de agrotóxicos para uso na lavoura. Isso afeta a nossa saúde? Podemos confiar nos legumes, frutas e verduras que consumimos?

Os estudiosos do assunto afirmam que os agrotóxicos são cada vez mais um importante problema de saúde pública. Eles afetam as pessoas nas fábricas de agrotóxicos e em seu entorno, afetam aqueles que trabalham na agricultura ou vivem nas proximidades de áreas agrícolas, além, é claro, de toda a população que consome produtos agrícolas e animais. Então, quem se beneficia com a liberação crescente dos agrotóxicos?

O mercado brasileiro de agrotóxicos expandiu rapidamente na última década (190%) e bateu novos recordes de janeiro ate julho desse ano, colocando o Brasil em primeiro lugar no ranking mundial desse negócio muito lucrativo. Os que mais lucram com a desregulamentação e flexibilização da legislação para favorecer esse mercado é a indústria química, a de sementes, os grandes proprietários de terra e o setor financeiro.
 

Muitas empresas estrangeiras fizeram do Brasil um importante consumidor de seus produtos, vendendo inclusive produtos proibidos em seus países de origem. Entre elas estão a Helm e a BASF (alemãs) e a Adama e a Syngenta (China). Alguns exemplos de substancias proibidas liberadas em 2019 no Brasil:

– a Helm aprovou um agrotóxico com uma substância chamada diquate. Ela foi proibida na União Europeia porque pode prejudicar o sistema hormonal humano e é ameaça para aves e mamíferos;

– a Syngenta vendeu diversos produtos contendo atrazina, um herbicida que é proibido na União Europeia desde 2003 porque pode causar problemas cardíacos em humanos e estragos na vida sexual de sapos machos (já sabemos que o aumento da malária, dengue, etc. provocada na região da multinacional Vale aconteceu em razão da mortandade dos sapos);

O que ganham essas e outras empresas envolvidas nesse negócio? Um dos ganhos mais importantes é a desoneração fiscal.

Quem perde? A política de desoneração fiscal impede a arrecadação de muito dinheiro. Só em 2018, os cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 2,07 bilhões com isenções fiscais dadas a venenos. Por outro lado, o governo gasta muito no tratamento de intoxicações agudas, tratamentos de câncer e doenças crônicas provocadas pelas substâncias presentes nos agrotóxicos. Ou seja, os maiores prejudicados com essa política somos nós que não temos acesso à alimentação saudável e as futuras gerações herdeiras da água e do solo contaminados.  

Maria Claudia de Almeida Viana Junqueira, diretora e coordenadora do Encontro dos Professores Representantes