A prevenção não pode começar somente quando o professor já adoeceu

Quando um professor precisa se afastar da sala de aula por uma questão relacionada à saúde mental, enxergamos apenas a parte mais evidente de um problema que, muitas vezes, começou muito antes. Antes da licença médica podem existir meses de sobrecarga, pressão, conflitos, burocracia e dificuldades que vão se acumulando silenciosamente na rotina profissional.
Neste Setembro Amarelo, precisamos olhar justamente para esse período que antecede o afastamento. Falar sobre saúde mental e incentivar a busca por ajuda é indispensável, mas a prevenção não pode começar somente quando o professor já adoeceu. É necessário discutir também as condições em que esse profissional trabalha e o quanto o próprio ambiente escolar pode contribuir para o seu desgaste.
Os números reforçam esse alerta. Em 2025, professores efetivos da rede estadual de São Paulo tiveram 33.309 afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais, segundo a Diretoria de Perícias Médicas do Estado de São Paulo (DPME), uma média de aproximadamente 91 por dia. Somente no primeiro trimestre de 2026, foram outros 6.256 registros. Em um levantamento anterior, a DPME mostrou ainda que, entre janeiro e setembro de 2025, as licenças somaram mais de 911 mil dias de afastamento.
Os dados não permitem atribuir esses afastamentos a uma causa específica, mas uma quantidade tão expressiva de licenças exige reflexão. Depois de mais de seis décadas acompanhando a educação, vejo uma profissão que acumula responsabilidades. Além de ensinar, o professor enfrenta exigências burocráticas, cobranças por resultados, conflitos e, em muitos casos, situações de desrespeito e violência. São pressões que não podem ser ignoradas quando discutimos o bem-estar de quem está diariamente dentro das escolas.
Não podemos transformar uma questão que também é coletiva em responsabilidade exclusiva do indivíduo. Dizer ao professor que ele precisa cuidar da própria saúde mental é importante, mas insuficiente se não houver suporte psicológico acessível, acolhimento diante de situações de violência e condições adequadas para o exercício da profissão.
É nesse ponto que o Setembro Amarelo precisa ir além da conscientização. Prevenção também significa agir antes do afastamento, identificando sinais de sofrimento, oferecendo acompanhamento e revendo práticas que ampliam desnecessariamente a sobrecarga dos educadores. Significa, sobretudo, ouvir quem está dentro da escola.
Não podemos normalizar o professor permanentemente exausto nem considerar que determinadas situações precisam ser suportadas simplesmente porque fazem parte da profissão. Quando o afastamento acontece, o problema já se tornou visível. A nossa responsabilidade é enxergá-lo antes.
Depois de uma vida dedicada ao magistério, continuo acreditando que valorizar o professor passa por salário, carreira e reconhecimento, mas também por garantir condições para que ele exerça sua profissão sem sacrificar a própria saúde. Neste Setembro Amarelo, essa talvez seja a reflexão mais importante: cuidar da saúde mental dos professores não deve começar no afastamento. Precisa começar dentro da escola.
*Silvio dos Santos Martins é professor e Presidente do Centro do Professorado Paulista (CPP).
