Reprodução TV Uol

José Cherrin diz que sobreviveu por milagre ao ser agredido durante votação da Previdência na casa do povo


*Atenção: o texto a seguir é acompanhado de vídeos e imagens fortes

 
Ele saiu da zona sul de São Paulo, onde reside e leciona na Escola Estadual Isaltino de Mello, região de Campo Grande (próximo a Interlagos), ao nascer do sol.

Com colegas da unidade escolar, dirigiu-se à Assembleia Legislativa do Estado de SP (Alesp), no Ibirapuera, onde chegou às 8h15 de 3 de março, uma terça-feira, depois de percorrer 50 minutos de ônibus.

José de Jesus Cherrin Fernandes, professor de Física do ensino médio, queria acompanhar a votação em segundo turno da reforma da Previdência dos servidores públicos paulistas, enviada ao Legislativo pelo governador João Doria (PSDB), em novembro.

Já no local, o professor deparou com fila para entrar no Plenário Juscelino Kubitschek, palco de debates e votações de interesse popular. É nele que deputados decidem, majoritariamente alheios a protestos, o futuro da população do mais rico estado brasileiro.

Agendado havia dias, um ato unificado de entidades do funcionalismo público tomava os corredores da suposta casa do povo, além da área externa e parte da Av. Pedro Álvares Cabral.

Milhares de servidores de variadas categorias se aglomeravam na tentativa de acompanhar de perto a votação que definiria os rumos de suas aposentadorias.

 

“Esperei 40 minutos na fila, que, de repente, parou. Disseram que o Plenário, cuja entrada do público fica no primeiro andar, havia lotado. Tempos depois, ouvi gritos e notei que a Polícia Militar estava jogando spray de pimenta na multidão que se espremia pelos corredores, que devem ter uns 100 metros e são fechados, sem nenhuma janela”, conta Cherrin. “Foi quando eu e meus colegas descemos ao térreo, em meio ao tumulto. Só que tenho 64 anos, mobilidade comprometida, e por isso me sentei no chão do saguão, já no andar de baixo.”

O professor tomava um copo de café, distribuído por organizadores da manifestação, quando, antes mesmo de terminar a bebida, seu vício, notou 12 elementos do Batalhão de Choque da Polícia Militar, distribuídos em duas fileiras de 6.

Com escudos em punho, capacetes e botas, fardamento digno de armadura, os profissionais da segurança se posicionaram de frente para cerca de dez pessoas sentadas próximas à entrada principal.

Um deles lançou spray de pimenta no rosto de duas mulheres pacíficas, que reclamaram. Mais presentes também gritaram contra o abuso de autoridade, o que intensificou a repressão.

“Os policiais avançaram desferindo golpes de cassetete. Uma professora pediu para que parassem de nos agredir, mas não deram a mínima. Não bateram tanto nela, acredito que por ser mulher, felizmente. Eu, porém, que estava sentado no chão, desarmado, calado, apanhei como nunca. O que fizeram comigo não se faz nem com um animal, dado que hoje existem diversos movimentos em defesa dos bichos”, desabafa o físico.

Cherrin levou aproximadamente uma dezena de golpes, de acordo com imagens do momento. Ao menos quatro integrantes do Choque o espancaram, como se vê no vídeo publicado pelo Uol. Ele é o homem de jaqueta preta, camiseta verde, mochila e óculos de grau.

A vida do educador, que está há apenas três anos no magistério, foi salva da truculência policial por um colega de profissão, que o puxou pela mochila e o arrastou até a porta. O segundo professor-herói do fatídico 3 de março não foi identificado, embora seja lembrado com carinho.

“Não o conheço. Evidentemente, não deu tempo de conversarmos ali, no meio da confusão, mas tenho imensa gratidão. Ele salvou a minha vida”, ressalta a vítima.

 

Atordoado pelo gás inalado e pelo espancamento, Cherrin conseguiu se levantar e atravessar a porta, enquanto ouvia tiros de bala de borracha e bombas de efeito moral.

Policiais dispararam à queima roupa para expulsar o povo da casa do povo. Este outro vídeo flagrou o momento em que o Choque atira contra pessoas, a poucos metros de distância, bem como o professor sendo arrastado e ajudado também por uma mulher. 

 

Findado o horror, o educador desceu a rampa de acesso da Alesp meio cego pela fumaça do gás lacrimogêneo, já sozinho.

Atravessou a rua, entrou no Parque Ibirapuera, cruzou-o, e pegou um ônibus no lado oposto, em direção ao Hospital do Servidor Público Estadual, o Iamspe, que fica na Av. Ibirapuera, a 2km do parlamento paulista.

Foi atendimento imediatamente e ficou 8 horas no hospital, onde encontrou mais servidores feridos por agressão na votação da Previdência. Passou por dois médicos, entre eles ortopedista, fez 8 exames de raio X e outros procedimentos.

Ainda no hospital, viu reportagem da TV Globo sobre o episódio, que editou imagens para mostrar única e exclusivamente servidores atirando objetos contra as portas do Plenário.

“Aquilo foi uma inversão. Não fomos nós que agredimos a polícia. A maioria era pacífica. Não temos armadura, bombas, armas, nada. A arma do professor é uma caneta, coisa que nem tinha quando fui severamente espancado.”

 
Ele deixou o Iamspe às 20h, horário do jantar, embora estivesse apenas com o cafezinho servido por entidades pela manhã, na casa do povo. Pegou um táxi até o Jardim Marajoara, onde mora, percurso para o qual desembolsou R$ 35.

Saiu com receita médica recomendando anti-inflamatório e analgésico (comprados por R$ 70), além de atestado para afastamento das atividades profissionais por cinco dias. Também carregou desejo de justiça.

Denunciou o Estado na 36ª Delegacia de Polícia, à rua Tutóia, com apoio jurídico do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de SP (Apeoesp).

“Sei que a justiça é lenta e dificilmente conseguirei algo. Mas quero que saibam que o Estado bateu em professor. Não podemos calar.”

Na quinta-feira (5), dois dias depois de sofrer a violência, o professor compareceu ao Instituto Médico Legal (IML) para fazer exame de corpo de delito.

Teve fotos registradas de diversas partes do corpo, principalmente dos antebraços, coxas e mãos.

A vítima conta que há sangue represado nos braços, ombros e em parte da pelve. Há também fissura nas costelas. Veja imagens.

“Tudo porque me opus à reforma, que na verdade nem é para mim. Eu já sou aposentado, mas acredito na luta por justiça social. Os professores ganham pouquíssimo e trabalham muito, em condições adversas. Salas lotadas, violência, infraestrutura precária. A nova Previdência não é justa. Ela aumenta a idade mínima inclusive de mulheres, que são maioria no magistério, e também a alíquota de contribuição, chegando a até 16%. Vai tirar dinheiro de quem já não tem. É uma injustiça que precariza o trabalho e consequentemente a educação”, pontua.

ORGULHO DE SER PROFESSOR

Formado em física pela Universidade de São Paulo (USP), José Cherrin trabalhou por 32 anos na iniciativa privada, na Volkswagen. Chegou a ser auditor categoria ISO 9000 na rede de concessionárias, o que aponta para uma carreira consolidada na área.

Com 35 anos de contribuição para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), em julho de 2011, aposentou-se.

O gosto pela educação, por transmitir conhecimento adquirido, levou-o a prestar concurso na rede estadual de ensino de SP, sendo aprovado.

“Sempre gostei da área educacional. Então, percebi que minha bagagem de física e matemática poderia contribuir para ensinar jovens da nova geração, especialmente da classe mais pobre”, conta, orgulhoso da escolha.

Em abril de 2018, iniciou os trabalhos na E. E. Isaltino de Mello, lecionando para estudantes do ensino médio por R$ 13 a hora/aula. 

A escola e todos os colegas manifestaram apoio depois da agressão, assim como alunos e ex-alunos.

“Foram de verter lágrimas dos olhos todas as mensagens carinhosas que recebi. É o que me faz não perder as esperanças e o que me dá forças para levantar e entrar na sala de aula novamente.”

Cherrin lamenta o ocorrido de olho na história, sua área de estudo atual. “O maior soldado do ocidente, Alexandre, enviava para seu professor, Aristóteles, amostras da fauna, da flora, de todos os locais que conquistava. O maior soldado do mundo sempre demonstrou respeito a seu professor.”

O físico, que conversou com a reportagem na sexta-feira (6), gravou um vídeo comentando o que passou na Alesp. Confira.

  

ESTADO OPRESSOR

Na própria terça-feira (3), o governador João Doria usou as redes sociais para justificar as agressões.

“Não posso deixar de registrar meu repúdio aos atos de vandalismo presenciados durante a votação, dentro e fora da Alesp. Depredação de patrimônio público, intimidação aos parlamentares, agressão a policiais e desrespeito à democracia”, postou.

Na sequência, Doria usou as mesmas imagens veiculadas pela TV Globo e outros veículos da grande mídia para desqualificar a manifestação. 

“As imagens são revoltantes. Depredação do patrimônio público, agressões aos policiais e desrespeito com os cidadãos. A esquerda sindical não respeita a democracia e age com truculência. É a elite do atraso. Parabéns aos deputados que votaram favoravelmente à Reforma da Previdência e aos policias que contiveram esses vândalos fantasiados de manifestantes.”

O que não aparece nas imagens é que os corredores do entorno do Plenário só esvaziaram, a ponto de pessoas terem espaço para pegar e lançar objetos contra as portas, depois de ação policial.

Às 9h20, à frente do Juscelino Kubitschek, havia multidão de servidores, dispersada com gás de pimenta, bombas de efeito moral e balas de borracha.

 

 

 

 

 

Aglomerado, o público batia nas paredes e portas e pedia para acompanhar a votação. De dentro do Plenário, era possível ouvir a manifestação e o princípio de confusão com a polícia, que justificava lotação máxima do espaço e tentativa de invasão do povo na casa do povo. 

O presidente da Alesp, deputado Cauê Macris (PSDB), em nenhum momento parou a sessão para tentar negociar com as pessoas forma viável de acomodar a todos.

Há diversas salas com televisores disponíveis, por exemplo. Excepcionalmente, também seria o caso de verificar a possibilidade de a população acompanhar os debates de pé, visto que a classificação “lotação máxima” é utilizada considerando as cadeiras da galeria, não o espaço em si.

Tratando-se da casa do povo, supõe-se que receptividade popular seja melhor do que repressão, que teve anuência do líder do Legislativo.

Toda a sessão ocorreu sob eco de explosões e gritos. A deputada Isa Penna (PSOL) solicitou à mesa diretora que interviesse para que o bombardeio policial cessasse, o que não ocorreu.

Em nome da lei e da ordem, o tucano afirmou que os trabalhos prosseguiriam. O Batalhão de Choque, inclusive, saiu pelo corredor interno do Plenário, à direita, ambiente passível de ocupação.

Cabe reforçar que os ânimos já se acirraram na véspera da votação, quando Macris mudou o horário de votação às pressas, da noite para o dia, na tentativa de enfraquecer o ato unificado das entidades do funcionalismo

 

MAIS CASOS DE AGRESSÃO

José Cherrin não foi o único servidor público agredido, apesar de configurar o caso mais grave. 

A maioria das pessoas passou mal por inalação de gás lacrimogêneo. Outros foram atingidos por balas de borracha.