Uma história real que alimenta a esperança de vermos finais felizes na vida de outros meninos brasileiros infratores.
Acompanhe o enredo. Fatores preponderantes levaram este adolescente, ainda que interno da Fundação Casa,àa conquista do primeiro lugar num consagrado concurso literário.

 

Fato pioneiro. Não há registro de que outro adolescente da Fundação Casa tenha sido classificado na Olimpíada de Língua Portuguesa. Este ano  53.706 textos foram enviados por estudantes de todo o território nacional nas quatro categorias: poema, memória literária, artigo de opinião e crônica.

 

A olimpíada reúne alunos de escolas públicas de todo o Brasil e é promovida pelo Ministério da Educação em parceria com a Fundação Itaú Social. Para conseguir participar da segunda fase do concurso o adolescente, de 17 anos, ganhou uma autorização judicial para viajar de avião pela primeira vez.

 

Ele teve a companhia de sua grande incentivadora, a professora de português Maria da Penha Silva, que dá aulas na Fundação Casa há 12 aos: “Sempre trabalho com textos reflexivos para dar vazão para que eles pensem o que poderiam ter feito de melhor para não estarem nas unidades”. Ela afirma que já havia notado a aptidão do jovem para escrever: “Ele tem boa capacidade de reflexão”.

A docente sugeriu que todos escrevessem textos com o tema “O Lugar Onde Vivo”. Para fazer o poema, o adolescente  levou apenas 20 minutos intitulado Vida em Transição.
O tempo gasto com leituras e o apreço pelos livros deram a base para o sucesso do aluno:”Gosto muito de música, ouço vários estilos diferentes. Gosto de Racionais MCs, Facção Central. Escrevo letras de rap e funk há alguns anos. E gosto de ler. Aqui na biblioteca da fundação fazemos troca de livros às sextas-feiras. Esses dias li um de poesias do Fernando Pessoa”, contou.

Selecionado, o adolescente recebeu uma autorização especial para viajar para Belo Horizonte, em Minas Gerais, com a professora para participar da semifinal. Desconfiado, achou que poderia sofrer preconceito por conta da sua história.  “Não era todo mundo que sabia de onde eu vinha, mas quem sabia não me discriminou. Muitas pessoas até me abraçaram, me elogiaram. Fiquei emocionado. Mas é complicado. Evangélico, o adolescente, ao anunciar o resultado reservou alguns minutos para agradecer a Deus.

 

“Tudo foi novo para mim. Pessoas que eu nunca tinha visto estavam me aplaudindo e falando que eu merecia aquela vitória. Lá eu vi que posso mais. Isso despertou uma vontade de me aprofundar nos estudos e de fazer faculdade. Mudou até minha maneira de lidar com minha família. Sou outra pessoa desde que voltei. E acho que fui o primeiro de muitos meninos daqui a conseguir isso”, declarou otimista.

Acompanhe o poema vencedor na íntegra:

Vida em Transição
Viver na Fundação não é bom
Bom é ser livre em toda situação
Mas tenho minha opinião
Sobre esse período de transição
Que muitos dizem ser prisão.

Nesse lugar, maldade…
Que ao mesmo tempo é saudade
Por estar privado de liberdade
Mas tem um lado positivo
Nessa realidade
Estou me reabilitando para a sociedade.

Acordo e vejo grades
Meu peito dói de verdade
Só quem passou
Por isso sabe
De todas as realidades
E crueldades…
A maior necessidade
É a Liberdade!

Aqui lições de vida transmitem
Muitas coisas boas
Reconhecimento como pessoa
Que errar é humano
Mas aprender é a melhor coisa.

Atrás desses momentos tem algo impressionante
Hoje me tornei um estudante
Descobri que sou inteligente
Produzi este poema e me sinto importante.

Secom/CPP