Planos e decisões de retomada ao trabalho durante a pandemia do coronavírus mostram como as leis e empresas insistem em ignorar o papel da mulher

Em meio à pandemia do novo coronavírus, a última semana começou agitada e com um tom de preocupação para muitas mulheres trabalhadoras do estado de São Paulo. A decisão do governador do estado, João Doria, e do prefeito da capital paulista, Bruno Covas, de retomar a abertura de algumas áreas do setor de comércio e serviços mexeu, positivamente, com as esperanças de empresários, na tentativa de reerguer a economia. Mas, por outro lado, abalou a dinâmica emocional e estrutural de muitos lares que têm as mulheres como único ponto de apoio financeiro e com a função de cuidadora das pessoas que moram com elas. No caso, os filhos.

Explicamos: a angústia que ronda essas mulheres é gerada pela falta de apoio do sistema estatal e empresarial em pensar que somente a volta das atividades de trabalho resolve um problema social que se vive. Mas, claramente, ignoram os pontos complexos de uma sociedade desigual: a mulher no ambiente de trabalho.

A participação feminina no mercado de trabalho da região metropolitana de São Paulo representa 54,2%, de acordo com pesquisa publicada pelo DIEESE em 2018, sendo que 33% das mulheres são chefes de família e têm responsabilidade total pelo rendimento financeiro da casa.

Segundo a doutora em Sociologia pela Unicamp e professora de Publicidade e Propaganda na Escola Superior em Propaganda em Marketing (ESPM), Tatiana Amendola, a naturalização do papel da mulher frente à maternidade e a falta de compreensão de seus diferentes papeis sociais tendem a condicioná-la somente ou à função de mãe ou à função de profissional.

“A mulher, por muitas vezes, se vê obrigada a equilibrar seus diferentes papéis. O ambiente de trabalho exige dela a mesma postura e performance atribuídas ao campo do masculino. E a maternidade exige dela uma responsabilidade quase que total diante dos filhos. Quando acontece uma situação como essa, de junção de papéis, de ter que voltar ao trabalho sem ter com quem deixar o filho, percebemos o quanto a sociedade não consegue entender a fluidez dos espaços e papéis de gênero. É, então, uma consequência não cogitá-la para ser o centro de uma discussão econômica e social como essa, já que ela não estará totalmente disponível para assumir responsabilidades no âmbito profissional”, explica Tatiana Amendola. 

Pesquisa atualizada do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicada em junho de 2020, revela que as mulheres trabalham 10,4 horas por semana a mais que os homens em afazeres domésticos ou no cuidado com as pessoas. Segundo a doutora em antropologia social pela USP, Paula Pinto e Silva, de São Paulo, a pandemia mostra com mais clareza as desigualdades. “Conseguimos ver como a mulher precisa de um sistema estruturado e operando para que ela consiga desenvolver seu trabalho. Sem uma creche, sem escola, sem uma babá ou uma empresa que compreenda seus papéis, a mulher não consegue desempenhar as mesmas funções que o homem”, reflete a antropóloga.

Aqui, então, surge uma segunda angústia, somada agora ao desespero: relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que mulheres são as pessoas que mais estão sofrendo danos com a pandemia quando o assunto é trabalho. Elas são maioria em atividades que estão paralisadas, como varejo, ou trabalham em cargos de cuidado, que é o caso das enfermeiras, cuidadoras de idosos, babás e domésticas. Entretanto, são minoria em áreas denominadas essenciais, como construção civil e produção de alimentos.

De acordo com Marcia Bandini, professora do Departamento de Saúde Coletiva da UNICAMP, as empresas têm como responsabilidade social proporcionar possibilidades positivas para que colaboradoras retornem ao trabalho seguras e tranquilas em relação aos próprios filhos. “Não há uma normalidade diante do que se vive atualmente no cotidiano. Em meio a uma pandemia, as empresas, juntamente com o Estado, têm que pensar no papel da mulher e o trabalho. Mais do que uma questão econômica, é uma questão social”, finaliza Marcia.
 

Fonte: Exame