Um professor de uma rede particular de Salvador (BA) foi hostilizado por alunos em sala de aula, sendo atingido por um azulejo atirado por um jovem. O ato causou o acidente, que cortou o olho do profissional. Casos como esse são comuns em diversas escolas, visto que a violência nas escolas é realidade em boa parte das unidades de ensino. Confira o relato do professor, na íntegra.

 

“Era meu primeiro dia de aula numa escola privada de Itapuã, em Salvador (BA). A escola era privada, bem popular, com preço baixo de mensalidade e quase todos os alunos eram moradores do próprio bairro. A direção parecia tratar o estudo como um negócio local mesmo, sem proposta pedagógica nenhuma. Fui contratado para substituir uma professora de biologia que não aguentou ficar por lá.

 

Meu primeiro contato com os estudantes foi por meio de um azulejo azul, arremessado por um aluno do 3º ano em meu primeiro dia de aula. Fui atingido acima do olho esquerdo e lembro de ter sangrado muito. Decidi não recorrer à direção e tentar resolver tudo ali na sala mesmo. Seriam duas aulas seguidas, um total de 100 minutos. Fiquei esse tempo inteiro sangrando e discursando sobre o ocorrido com os alunos.

 

Tentei mostrar o lado do professor, que está ali ralando para ganhar pouco. Falei do contexto socioeconômico do bairro deles, que era muito precário, abandonado pelo Estado, e que eles deveriam aproveitar as oportunidades que tinham para aprender, trocar experiências, tentar promover uma vida de mais qualidade para eles, para a própria família, para o bairro.

 

Fui dando exemplos de coisas que aconteciam na comunidade. Em vez de a população se organizar para melhorar a própria vida, eles mesmos se “entrematavam”, se agrediam, depredavam o próprio bairro… Atitudes como essa não ajudariam em nada.

 

Mais por compaixão pela minha situação, já que fiquei mais de uma hora falando enquanto sangrava, do que pelo discurso, alguns alunos aos poucos foram trazendo exemplos de pessoas que eram cordiais no bairro, que ajudavam uns aos outros etc. O rapaz que jogou o azulejo, que eu sabia quem era, mas acabou achando que ficou no anonimato, ficou o tempo todo calado.

 

Fiquei dando aula nessa escola por apenas oito meses, pois surgiu outra oportunidade melhor para mim, mas depois desse dia senti uma aproximação melhor dos alunos comigo, parece que eles entenderam, acabamos ficando muito amigos… Inclusive esse aluno que jogou o azulejo ele passou a ser bem cuidadoso e respeitoso.

 

Acredito que tenha sido uma forma de se autoafirmar como o ‘malandro’ da sala, o cara perigoso, para ganhar certa autoridade perante os colegas. Acho que nesses lugares mais sofridos, essa é uma forma de elevação de autoestima comum entre os jovens. É se afirmar pela violência.” – Professor Bruno

 

Secom/CPP