
Em evento da Folha de S. Paulo, especialistas concordam que remuneração abaixo da média desprestigia categoria
A diferença salarial entre professores da rede pública de ensino e profissionais de outras áreas com ensino superior é um dos principais motivos para a desvalorização do magistério. A conclusão é de especialistas da área que participaram do 2º Fórum de Inovação Educativa promovido pelo Jornal Folha de São Paulo nos dias 24 e 25 de maio. Dentre diversos assuntos debatidos, da Base Nacional Comum Curricular aos desafios contemporâneos da profissão, uma política salarial justa foi apontada como caminho determinante para melhoria da carreira de professor.
Os dois dias de evento na Unibes Cultural, capital paulista, reuniram pesquisadores em educação e estudiosos da área para contribuírem com uma análise do cenário atual da educação brasileira. De acordo com o Movimento Todos Pela Educação, a partir de dados tabulados em 2015, os 2 milhões de professores da educação básica ganham, em média, o equivalente a pouco mais da metade do salário de outros profissionais, isto é, 52,5%. A situação, somada a condições precárias de trabalho, tem causado desinteresse entre os jovens para licenciaturas.
Na avaliação de José Carlos Rothen, pesquisador da Universidade Federal de São Carlos, em início da carreira o salário é até compatível com outras profissões. O problema surge mas à frente. “Depois de cinco anos de carreira há completa defasagem salarial do professor em comparação a outros profissionais com o mesmo tempo de trabalho”. Ele sinaliza, inclusive, que o modelo não é estimulante, o que faz com que a carreira só seja digna se o professor puder fazer parte de uma minoria que dá aula em escola de grife ou universidade.
Juçara Vieira, ex-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, complementou dizendo que não se trata de afirmar que o professor precisa ficar rico. “O problema é ele ter de vender perfume no intervalo, fazer doces e salgados para ampliar a renda. O professor precisa se dedicar exclusivamente à profissão, deve ter condições para viver com dignidade”, afirmou.
Para Priscila Cruz, presidente do Todos pela Educação, é preciso que a sociedade em geral passe a olhar o professor com outros olhos. “Por mais que haja amor pela profissão, professor não é sacerdote, ou seja, ele deve ser vistos como profissional, com legitimidade para progressão na carreira”, disse, chamando atenção para o fato de que o educador é o principal profissional do país, por trás de todos os outros, embora não seja tratado efetivamente como tal.
Formação Continuada
O Fórum promoveu debate acerca da formação continuada dos professores, considerada imprescindível para o avanço da educação, uma vez que novas propostas educacionais surgem de tempos em tempos. Por outro lado, é preciso considerar que a progressão na carreira é baseada apenas em tempo e títulos, o que pode resultar em cursos pouco eficientes.
Diretor da Faculdade de Educação Sesi-SP, César Callegari disse que muitas vezes os cursos feitos pelos professores funcionam apenas como moeda, sem relação direta com a realidade da profissão. “O professor deve ser estimulado a deixa algo para a educação, um legado. Ninguém valoriza quando ele escreve um livro, produz conteúdo diferente daquele intrínseco à sala de aula”.
Luciana Caparro, professora da Escola Municipal Desembargador Amorim Lima, ressaltou a necessidade de atualização tecnológica frente à participação dos alunos. “Hoje, o aluno tem muita experiência, às vezes até mais que o professor, porque a tecnologia contribui para isso. Dessa forma, quando o professor está aberto ao novo, ele aprende muito também e pode desenvolver projetos diferentes. A tecnologia não é um problema. Temos que estar dispostos a aprender e praticar juntos.
A educadora comentou ainda que convém se aproximar cada vez mais do aluno e da família. “Quando há uma greve, por exemplo, o aluno quer saber o porquê de o professor não estar em sala de aula. Então, precisamos explicar para ele e para a família o contexto de determinada reivindicação, porque o aluno vai ter acesso a opiniões distintas, seja na internet, seja com os colegas. Este diálogo tem que ser proposto por nós”, concluiu.
Base Nacional Comum Curricular
O documento que deve nortear o currículo das escolas de todo o País também fez parte do ciclo de palestras. Segundo especialistas, o que, até então, segue em aberto é o descompasso de tempo do documento, que aponta para o século 21, enquanto professores seguem no 19.
De acordo com Claudia Costin, professora visitante de Harvard e ex-secretária de Educação do Rio de Janeiro, a escola atual não ensina a pensar cientificamente. “No PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) de 2015, entre 70 países, o Brasil tirou 63º lugar em ciências, sendo o quesito ‘pensar cientificamente’ o pior resultado. No que se refere à matemática, nós, a 9ª economia do mundo em PIB (Produto Interno Bruto) tirou 66º lugar entre 70 países, ou seja, não podemos continuar nos enganando”.
Segundo ela, o mundo está mudando em nível acelerado. As demandas que exigem elaboração são mais cobradas do que atividades que exigem a repetição, isso olhando para robotização, por exemplo. “Ou começamos a ensinar para o século 21 ou teremos muitos problemas”, avaliou, sugerindo que a BNCC deve reestruturar a formação inicial do professor de forma que contemple as mudanças seculares.
Para Guiomar Namo de Mello, diretora da Escola Brasileira de Professores, os docentes trazem na bagagem uma formação antiga, que deixa o desenvolvimento pessoal a desejar. “O problema é como ensinar o professor a ensinar o que está escrito na base nacional. É preciso que ele aprenda nas mesmas condições que ensina”, afirmou.

Triste a.condição do professor neste país. O valor da hora aula é menor que a do trabalhador braçal, sem desmerecer seu valor, entretanto ,apesar do nivel universitário continua a viver no senso comum e identificando-se culturalmente com seu aluno. Com o que ganha e com uma jornada estafante não consegue frequentar cursos de aperfeiçoamento, adquirir livros ,frequentar teatros e lazer de qualidade compatíveis .Assim seu trabalho tem um reflexo deficitário na sala.de aula principalmente na escola que não lhe dá nenhum recurso para melhorar.
Falaram muito bem sobre a situação cada vez menos atrativa do magistério, porém ninguém sai da zona de conforto e realmente ajuda!
Professor quando faz reivindicações através de greve só colabora com os salários daqueles que estão ocupando funções nas diretorias ou gestão nas escolas, não há respaldo.